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terra de pelados

Apesar da dominante presença do hinduísmo, a Índia tem uma série de outras religiões das quais pouco ou nada sabemos. Uma dessas, que parece ter surgido a partir do hinduismo, é o jainismo. Eles têm uma espécie de profeta, Jain, que sempre é retratado como um homem nu – as genitálias à mostra, inclusive. Parece que podemos identificar os jainistas sobretudo pelo fato de alguns de seus seguidores não usarem roupa, uma forma de impedir que matem (sem querer) qualquer ser vivo. Eles andam também com uma espécie de espanador, para que não pisem nem mesmo em um inseto, um organismo invisível que seja. No nosso mesmo caminho do Rajastão, vimos um cena muito significativa neste nosso curto período indiano.

Viajávamos de carro, quando, no lado oposto ao nosso da estrada, surgiu  uma comitiva de pessoas, bem vagorosas, segurando algumas poucas bandeiras de cores fortes, e, no meio delas, um homem completamente nu, descalço, caminhando na maior placidez. Segurava somente o tal espanador, e andava com um olhar para o infinito. Nada o perturbava. Atrás dele, mais um seminu, usando apenas uma espécie de tanga, um pano branco amarrado (este que aparece na foto).

caminhada

pela estrada

Luís concluiu que foi a situação que mais o marcou, até então. Eu tive uma reação muito parecida. Na hora ficamos boquiabertos, parados no momento daquela pequena procissão de um homem nu – nu por uma causa tão nobre: não matar um ser-vivo sequer. E nós ali naquele carro, com ar-condicionado, diesel, rádio, telefones, blackberry, calças, casacos meias e sapatos. Câmeras fotográficas, mochilas e mais mochilas. Coisas pelas quais muitas vezes se mata e se morre. Enquanto o homem nu segue sem nada além de seu espanador. Parece que precisamos de tanto, mas no fim, é possível com tão pouco. A Índia insiste em escancarar isso: como o ser humano pode viver nas situações mais desprovidas, mais precárias, com menos, cada vez menos ou quase nada. E, sobretudo, “nonada”, como diria um sábio brasileiro.

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o caminho do rajastão

Há pouco mais de uma semana recebemos a visita do Nelson, pai do Luís, que fez uma passagem relâmpago por aqui. Aproveitamos um dia para fazer uma rápida viagem de carro até a vila de Kesroli, no Rajastão, que fica a cento e poucos quilômetros de Gurgaon e tem um simpático hotel, instalado num antigo forte do século XIV.

 

fileira de camelos

fileira de camelos

O forte-hotel é um lugar delicioso, mas o mais forte dessa pequena viagem foi o caminho da vinda. Saímos de casa por volta das oito, numa estrada cheia, como sempre são as estradas daqui. Na saída, cidades menores, mas ainda muito urbanas, foram margeando nosso percurso. A paisagem torna-se mais desérticas conforme entramos no outro estado. Logo surgem os primeiros camelos, puxando as carroças baixas. Depois, uma frota desses camelos. E ainda, um curral cheio deles e de pequenas ovelhas. Paramos o carro para tirar algumas fotos de perto. Luis e Nelson se aproximaram do portão, onde um menino empoleirado na coluna observava os passantes. Ele usava um pano branco na cabeça, enrolado em forma de turbante.

Logo vieram os homens mais velhos, prováveis donos do rebanho, e começaram a falar muito, numa língua que para nós todos era desconhecida. Tentamos o inglês, mas nem sinal de entendimento. Eles trouxeram outras duas crianças, uma menina e um menino, cobertos pela poeira, e ficavam o tempo todo apontando para os pequenos e em seguida para o nosso carro. E com as mão faziam o sinal de dinheiro, esfregando o polegar no indicador. Nelson tirou seu porta-moedas do bolso para dar algum às crianças e nisso o homem mais velho de todos – portando um vasto bigode e seu turbante – enfiou a mão na bolsinha e queria levar tudo embora. Nelson resistiu e conseguiu arrancar das mãos dele.

Assustados, Luis e Nelson entraram no carro (de onde eu não saí) e decidimos que era hora de partir. O homem ainda segurou a porta do passageiro e tentou forçar alguma coisa que não entendemos bem o que era. As crianças trazidas não paravam de sorrir e o tempo todo diziam algo para nós, balançando a cabeça, que era entre um pedido de socorro e um certo medo de que nós de fato entendêssemos o que eles queriam.

Um pouco antes dessa cena, na mesma estrada, um menino de cinco anos, no máximo, saiu correndo absolutmante desesparado quando diminuímos a velocidade do carro para tentar cumprimentá-lo. Nós ficamos perplexos com a reação, ele largou a mochila e tudo e saiu em disparada. Mas a cena descrita acima nos deixou algumas pistas da situação dessas crianças do caminho.

Vi agora no site da BBC essa notícia sobre crianças desaparecidas em Delhi.

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ainda sobre Jaipur

Continuando a mensagem anterior, caros leitores, volto a Jaipur.

 

riquixás de bicicleta nas ruas da cidade

riquixás de bicicleta nas ruas da cidade

 

No trem que percorre o trecho Delhi-Jaipur, os olhos não conseguem abandonar a paisagem que aparece na janela. Há duas marcas presentes todo o tempo na estrada: pessoas e lixo, muito lixo. A sujeira beira o tempo todo os campos floridos, tomados do amarelo da canola. E vemos que as pessoas vivem mesmo nessa lama toda, misturadas a esses restos. Vacas e búfalos magros pastam em meio a montes imundos, nos quais também brincam algumas crianças, muito novas. Logo surgem os primeiros camelos, puxando carroças no campo. Estamos no Rajastão.

Em meio aos trilhos, nas estações em que paramos pelo caminho, vemos famílias inteiras de cócoras, provavelmente vivendo nesse lugar. A miséria não tem pudor em se mostrar. É nos trilhos também que várias pessoas se agacham para fazer coco, sem qualquer cerimônia. Em Delhi, toda hora vemos homens mijando nas calçadas, bem à vontade, então parece que a prática é comum. E vamos constatando algumas coisas desse país tão ímpar: público e privado não são coisas distintas, não há separação entre essas instâncias. A cada momento isso se confirma mais. 

A chegada à estação de Jaipur nos deixa com a cabeça atordoada. Quando levantamos para sair do trem, entra um batalhão de homens uniformizados para rapidamente retirar as malas de algum figurão político ou militar que viajava no nosso vagão. Eles quase nos derrubam, correndo para que o tal sujeito não ficasse um segundo a mais do que o necessário no meio do populacho. E logo chega a nossa vez de ser assediados: um enxame de taxistas e puxadores (isso mesmo, os “pullers“) de riquixás voam em cima de nós e oferecem passeios para todo lado, hotéis, lojas, restaurantes, isso e aquilo. Temos que apressar o passo e brigar muito com um deles para que nos leve até o hotel por um preço justo. Conseguimos, por fim. 

Então, fomos em quatro pessoas – mas isso não é nada para os padrões locais – num riquixá rumo aos muros da cidade antiga. O trajeto de riquixá já é uma atração – provavelmente arriscada. E quando passamos pela primeira porta, vem o furacão. Cena de filme, Indianna Jones, aqueles mercados lotados de gente, macacos para todo lado, vacas deitadas com placidez na rua, búfalos para lá e para cá, vendas de tudo quanto é coisa, homens conversando longamente, sentados nos colchões de suas lojas, sem preocupar-se com possíveis clientes, feiras de legumes e frutas com todas as cores e cheiros, mulheres desfilando com toda sorte de saris e panos e pinturas de henna, anéis, pulseiras e tornozeleiras que trazem pequenos guizos sinalizando sua presença. Templos hindus com músicas altíssimas, frenéticas, atraem devotos que deixam seus sapatos na entrada e entram levando oferendas como côco seco e colares de flores naturais para os deuses. Mulheres muçulmanas cobrem as cabeças e parte do rosto com suas  vestes negras, e pequenos detalhes em dourado, muito vivo. Viramos uma esquina, e encantadores de serpentes tocam sua espécie de flauta para que as najas saiam do cesto e eles ganhem mais alguns cobres dos turistas. 

as najas não estavam muito animadas

as najas não pareciam muito animadas

E, aqui e ali, palácios suntuosos, deslumbrantes, alguns bem preservados, outros bem menos. A herança dos marajás do Rajastão – ainda hoje a família do último deles é dona dos palacetes e fortes que abrigam os hotéis mais sofisticados da cidade. Elefantes e camelos maltratados são oferecidos aos turistas, para que façam um lúdico passeio até o forte de Âmbar, um lugar belo e impressionante (mas que na base tem um lago tomado pelo lixo). 

E, pensamos: isso tem muita “cara” de Índia, da ideia de Índia que criamos no nosso imaginário ocidental, pouco ambientado com esse mundo. Mas a Índia parece ser isso, também. E não há dúvida de que ela pode ser muitas coisas, muitas faces, muitos cheiros, muitos recantos. Muitas formas de tratar o ser humano e do ser humano poder existir. A sensação é, por fim, de um grande e insondável mistério.

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sono em jaipur

SONO DE JAIPUR

SONO DE JAIPUR

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