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relatos de pessoas que passaram por aqui

danças da índia

por Alessandra  Mara Vidotti

As danças clássicas da Índia têm suas origens muitos séculos, senão milênios atrás. São compostas por elementos de dança pura, ou Nritta, em conjunto como que chamamos de abhinayas e rasas.

Abhinayas são itens ou trechos dramáticos, pelos quais se contam histórias de Krishna e outros deuses. Trata-se de parte inevitável da dança, já que ela comunica o significado real representado por uma performance. O dançarino que não se desenvolve na abhinaya é considerado ruim.

Rasas são os sentimentos e emoções transmitidos principalmente pelas expressões faciais. O uso de um rasa varia de uma performance para outra, dependendo da situação ou da história apresentada pelo item a ser dançado.

dançarinas de Odissi

São sete as danças clássicas indianas que se mantém vivas até os dias de hoje e que podem ser vistas a qualquer momento em uma cidade cosmopolita como Delhi, sempre acompanhadas de ótimos músicos ao vivo:

– Bharatanatyam: com origem em Tâmil Nadu, sudeste da Índia, é um dos estilos mais conhecidos em todo o subcontinente. Com movimentos rápidos, precisos e geométricos, principalmente sob a forma de triângulos, trata-se de uma dança vigorosa e excitante. Data de antes de Cristo, quando era praticada por mulheres que viviam nos templos, mas passou a ser estudada e desenvolvida em meados do século XIX.

– Kathak: tem origem no Norte da Índia, quando era dançada nas cortes dos reis. Inicialmente se restringia à contação de histórias, mas com o tempo, foi evoluindo o movimento rítmico virtuoso dos pés, uma de suas principais características hoje em dia, além dos giros deslumbrantes.

– Khathakali: proveniente do estado de Kerala, essa dança pitoresca se desenvolve a partir da representação dos épicos e escrituras antigas, com Ramayana, Mahabharata e Puranas. Acredita-se que a forma surgiu no século XVI e suas características mais marcantes são a maquiagem pesada e os estupendos figurinos.

– Kuchipudi: era basicamente uma forma de drama / teatro nos tempos antigos, a partir de sua origem no século 3 a.C. em Andhra Pradesh, mas o drama se perdeu e hoje está reduzido à dança pura. A maioria das dançarinas são mulheres e o figurino se assemelha ao de Bharatanatyam.

– Manipuri: é o estilo de dança clássica da região de Manipur, nordeste da Índia. Os movimentos do corpo, pés e expressões faciais na dança são delicados e aspiram mostrar completa devoção e graça.

– Mohiniatam: a primeira referência a Mohiniatam foi encontrada no “Vyavaharamala”, composta por Mazhamangalam Naryanam no século XVI. É essencialmente dedicada ao amor e devoção a Deus e dançada apenas por mulheres, que usam vestidos brancos em suas performances.

– Odissi: essa é a mais deslumbrante de todas por sua delicadeza e variedade nos movimentos e abhinayas. É hoje reconhecida como o estilo mais antigo de todas as danças clássicas indianas, tendo origem na região de Orissa. Trata-se de uma dança devocional templária, ou seja, dançada antigamente nos templos como forma de oração aos deuses. Utiliza um figurino específico e seus movimentos se transformam em perfeitas poses esculturais, à semelhança das estátuas femininas entalhadas nas fachadas dos templos, especialmente o Templo do Sol, em Orissa. A dança sofreu declínio a partir do final do século XIX e foi retomada na segunda metade do século XX após intensa pesquisa desenvolvida pelos primeiros gurus contemporâneos. Os temas favoritos para interpretação na dança são as histórias de amor entre Radha e Lord Krishna.

Em viagem pela Índia, inserir um espetáculo de dança no roteiro proporcionará certo encantamento que fará toda a diferença. Vale a pena conferir!

*  Alessandra nos visitou em Gurgaon durante o mês de fevereiro de 2010. Além de nos ensinar muito sobre Odissi, dança que pratica há alguns anos e um dos motivos da visita à Índia, ela preparou deliciosos “chai masala” e dividiu horas e horas de conversa conosco.

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tudo que você queria saber

sobre um “baba” indiano, mas não tinha coragem de perguntar.

Os babas, sadhus ou homem santos são aqueles tipos esquisitos que muitas vezes aparecem como a imagem estereótipo da índia. Eles têm a barba comprida, o cabelo também, podem estar cobertos de cinzas, alguns passam anos com um dos braços levantado, outros andam com facas e espetos enfiados na pele ou se sentam sobre camas de pregos.

Esses seres misteriosos se reuniram esse ano para um grande festival religioso hindu, o Kumbh Mela, que acontece às margens do rio Ganges na cidade de Haridwar. O encontro acontece a cada doze anos e parece que tem a ver o néctar sagrado que caiu de um pote em lugares diferentes da terra, quando era disputado por deuses e demônios. Mas confesso não saber muito mais sobre a história…

Um dos nossos  mais recentes visitantes, porém, o Philippe, veio para a Índia com o projeto de perguntar coisas aos babas no Kumbh Mela e ver o que os caras têm a dizer. Qualquer pessoa pode enviar sua questão, desde a mais existencial até as coisas concretas, como o aquecimento global ou a relação dos babas com o mundo da internet. Os vídeos e espaço para perguntas aos homens santos estão no site “o baba responde“.

Este vídeo é uma das respostas de um guru que o Philippe entrevistou:

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uma surpresa indiana

por Simone Azevedo

Jantar delicioso, vinho bem escolhido e quatro amigos queridos – um antigo, três conhecidos durante a viagem, todos brasileiros. Cercada do carinho e da simpatia deles, terminei minha jornada de dez dias na Índia. Fui para lá a trabalho, a convite de uma instituição financeira internacional, com a missão de dar uma palestra para jornalistas locais. Preparei com cuidado a apresentação. Não preparei o espírito. A bem da verdade, não tinha a menor idéia do que me esperava.

À mesa, o assunto era, claro, ela, aincredible India”. Todos pareciam felizes com a experiência de trabalhar e morar naquela terra de tão ostensivos contrastes, mas pouco confiantes para responder a uma questão aparentemente simples: o que há de belo na Índia?

Não fiz a pergunta referindo-me aos lugares turísticos sabidamente incríveis, como o majestoso Taj Mahal ou as montanhas do Norte. Minha curiosidade era o que a Índia tinha de admirável como nação. Viver naquele país, ou até mesmo degustá-lo por poucos dias, não é fácil, principalmente para quem está em cidades grandes como Nova Delhi e Mumbai. O trânsito é infernal. Buzinas soam desesperadas, deixando apenas raros segundos de silêncio. Pedintes nas ruas grudam nos vidros dos carros e não desistem até o semáforo abrir. Nessa época do ano, julho, o calor é forte, e a umidade é generosa. Nas ruas abundam a lama deixada pelas chuvas rápidas da tradicional monção e muito, muito lixo. Por toda a parte, sacos plásticos, garrafas e restos de comida entopem os bueiros e causam enchentes. Não há respeito aos sinais de trânsito, tampouco às faixas de pedestre. Em alguns cruzamentos, o pedestre pouco experiente pode se ver forçado a simplesmente desistir de atravessar. Bebês são vistos pelas ruas sem roupa e cercados de sujeira.

Nos supermercados, nas lojas, nas ruas, é bom estar sempre pronto para se defender da abordagem de um vendedor insistente e, na maioria das vezes, rude. Mulheres, principalmente as ocidentais, precisam de uma dose adicional de paciência. Olhares gulosos são disparados a toda a hora, mesmo para aquelas que se preocupam em cobrir os ombros e usar roupas comportadas, como pede a etiqueta indiana. Por vezes, os olhares vêm acompanhados de mãos atrevidas e desrespeitosas. Casos de estupro crescem dia a dia, assim como a economia pujante deste país. Em meio à crise internacional, a Índia prepara-se para expandir 7% este ano, turbinada pelo emprego e a renda gerados por organizações internacionais que lá se instalam em busca de mão de obra barata.

Os indianos de classe média são vaidosos e orgulhosos de si. Não mostram interesse por outros mercados emergentes, como o Brasil. Contam com estrutura regulatória sofisticada, alinhada aos padrões do primeiro mundo, e pouca eficácia na sua execução. Na prática, os indianos comportam-se como querem, e não como determinam as leis. A começar pelas questões mais naturais da existência humana. Nas ruas, necessidades físicas têm prioridade sobre as condições de higiene, e calçadas transformam-se em banheiro ao ar livre ao primeiro sinal de dor de barriga.

Talvez não haja mesmo tantas coisas para admirar na Índia. Ao menos para mim, parece que o melhor não está no que ela tem a nos oferecer, mas no que temos a descobrir em nós mesmos quando nos deparamos com ela. Lá, nada nem ninguém que faça parte da vida fora dos hotéis vai te ajudar a ser feliz. Os lugares são feios, o barulho é constante, a pobreza é constrangedora, e as pessoas parecem sempre prontas para testar o seu limite. Resta, então, descobrir em si a habilidade de enxergar as cores que entrelaçam o cinza das ruas, ou o sorriso espontâneo que vem de um desconhecido encantado com a pele geralmente branca dos ocidentais. É dentro de cada um de nós que encontramos os recursos para desvendar o belo da Índia, e essa busca foi a mais grata surpresa que tive neste país improvável.

Simone, além de ter sido uma grata descoberta e ter se tornado nossa amiga, é jornalista e editora da revista Capital Aberto. Ela visitou a Índia em julho de 2009.

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tudo, o tempo todo, em todos os lugares

por Marina Rheingantz

Voltei da India já faz quase dois meses, e o assunto continua fresquinho.

Cada dia encontro alguém que já foi, ou que conhece alguém que já foi, enfim, me parece que todos têm alguma ligação com este país, tão distante, mas tão próximo.

Enfim, cheguei, chegada, mas quando o assunto é índia, parece que dá um embaralhamento na cabeça. São tantas histórias, tantas lembranças, tantos cheiros, tanta gente e tanta buzina!

Chegamos em Nova Delhi na madrugada de uma quinta-feira, do mês de dezembro. No aeroporto, Indira Gandi, nos esperava nosso querido Luis, já um tanto mudado, mais magro e barbudo. A ida até a casa foi nossa primeira aventura indiana. O Luis guiando, pela primeira vez, e lá a mão é inglesa, e o trânsito… uma grande surpresa!

Chegamos sãos e salvos! O desejo era dormir e dormir, mas no dia seguinte, logo cedo, haveria um PUJA, cerimônia de celebração muito comum na Índia, em comemoração a mudança de escritório da Louis Dreyfus em território indiano! Conhecemos todos os integrantes do escritório, e a celebração foi algo, acho, indescritível. Muito dificil contar, tem que viver uma, para entender!

O primeiro fim de semana ficamos em Gurgaon. A primeira vez que fomos a Delhi,  vi um elefante no caminho, nossa. Foi uma alegria. Logo em seguida, passamos pela esquina dos macacos, e, bom, vaca em todas as esquinas…

Burrinhos, nas ruas de Gurgaon

Burrinhos, nas ruas de Gurgaon

Nossa primeira viagem, de fato

Fomos para Kesroli, de carro, com o Luis guiando, novamente!

Kesroli é uma vila, que fica a cerca de 120 km de Delhi. Demoramos por volta de 5 horas para chegar ao nosso tão esperado destino! Mas o caminho até lá foi repleto. A estrada tem uma média de uns 50 km/h, dividimos a estrado com carroças de camelos, com tratores, muitas motocicletas que carregam uma familia, sem capacetes, e riquixás, com gente saindo pelo escapamento!

Lá, saímos de bicicleta pela região. Fomos numa das melhores épocas, segundo o Luis, porque é quando a canola está bem amarelinha. Estava linda. O passeio de bicicleta foi outra aventura. As crianças vinham atrás de nós, pegavam em nossas bicicletas, e não queriam deixar que continuássemos.

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A primeira viagem de avião. Destino: Varanasi

Chegamos ao aeroporto bem antes do voo. Lá descobrimos que teríamos de esperar. O voo estava atrasado. Nossa, o Luis ficou uma fera, porque o cara que trabalha para a Kingfisher (grande companhia indiana) não queria nos dar uma previsão. Bom, conseguimos embarcar, e chegar em Varanasi, algumas horas depois!

Varanasi foi uma experiência fora do tempo! 

banho sagrado em Varanasi

banho sagrado em Varanasi

A primeira viagem de trem. Destino: Nova Delhi

E que viagem! Chegamos, como de costume, um tanto antes na estação de Varanasi, porque lá é bastante complicado se localizar nas estações, não tem muito letreiro, e quando tem, são desatualizados, uma zona! O trem atrasou…

A viagem foi maravilhosa, deu para ver um pouco da paisagem, mas logo escureceu, e só chegamos em Delhi ao amanhecer.

Na chegada de cada viagem, ficávamos um dia em casa, processando o que vimos, lavando as roupas e comendo comidas sem pimenta!

Fizemos outras viagens. Fomos a Jaipur e Pushkar, Rishikesh e o Nepal.

A viagem de volta de Rishikesh para Delhi foi o máximo! Estávamos num hotel lindo, na beira do Rio Ganges, onde ele ainda é bem limpo e onde tomamos um banho de rio, que limpou tudo! Porém, a situação era a seguinte: fomos de trem até Haridwar, estação mais próxima do destino, de lá, com um carro, seguimos até o hotel. Na ida, demoramos 3 horas, assim, na volta, pensando no horário do trem, saímos 3 horas e meia antes… e qual foi nossa surpresa… a estrada estava desobstruída na volta, o que nos custou somente uma hora até a estação. Chegando lá, cruzamos com uma manifestação, ou uma festa, mais me parecia uma festa, com músicas, muita gente, e um colorido que pega na alma! Foi hipnotizante!

Antes de entrar na estação, resolvemos fumar um cigarrinho, do lado de fora, que não durou muito, porque logo começaram a se aproximar de nós, e resolvemos não criar confusão ali… discretamente, fomos para dentro. Na Índia, tem uma coisa um tanto estranha, as estações de trem têm umas salinhas, com sofas, só para os estrangeiros. É dificil demais ser turista na Índia, é estranho. Não dá de jeito nenhum para esquecer que você é de outro lugar, em nunhum momento! Eu me senti como uma colagem lá. A gente é muito ocidental. Lá é mais visível, porque é tão diferente. Estou aqui me perguntando se é possivel imaginar tudo isso. Acho que para entender mesmo este país, tem que ir para lá, viver no meio dos indianos, porque é algo de outra ordem.

Voltando à estação de Haridwar…

Já chegando a hora de nossa partida, começamos a nos direcionar para nossa plataforma. Mas o trem não chegava. Aí ficamos preocupados, puxa, será que estamos na plataforma certa… bom, fui lá, numa saleta, perguntar. Entrei numa sala cheia de homens, nossa, foi difícil de entrar ali. Mas cruzei a barreira de olhares e entrei. E qual foi a constatação: o trem estava atrasado! 1 hora e meia, algo assim!

Ah, tá bom! Vamos passear mais um pouquinho pela estação. Acho que conhecemos cada canto dali.

E presenciamos um ataque de macacos. Primeiro, eles começaram a gritar entre eles, estavam muito agitados, correndo de um lado para o outro, dentro da estação. Quando, de repente, um deles pega um suquinho, daqueles de caixinha, de uma tendinha, e toma o suco! De repente, vem outro, e rouba uma sacola azul de uma senhora indiana! Aí os indianos se pronunciaram, começaram a gritar com os macacos. Então, o macaco desceu e atacou a senhora. Parece que foi um sonho!

 

macacos planejam o ataqui no teto da estação

macacos planejam o ataque no teto da estação

 

Saímos todos ilesos…

E algumas horas depois, nosso trem chegou, e voltamos para casa.

A casa de Luis e Julia é um grande porto-seguro na India. Um oásis. Silencioso, limpinho, com comida gostosa, muito espaço e pouca gente!

 

A ida para Rishikesh

A ida para Rishikesh

O Ganges limpinho, onde tomamos banho!

O Ganges limpinho, onde tomamos banho!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Preparando o fumo para mascar (paan) na rua de Varanasi

Preparando o fumo para mascar (paan) na rua de Varanasi

Um dia fantástico em Old Delhi

Um dia fantástico em Old Delhi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na Índia o pimenteiro é que tem dois furos!

Na Índia o pimenteiro é que tem dois furos!

A pintora Marina Rheingantz estreia o espaço dos visitantes do Shiva em Gurgaon. Marina esteve na Índia nos meses de dezembro, 2008, e janeiro de 2009.

Em breve teremos relatos dos outros visitantes que passaram uma temporada indiana conosco.

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