diários de lambreta ou “god’s own country”

Finalmente estivemos no Kerala. O estado, que fica bem na ponta oeste do subcontinente indiano, é conhecido principalmente pela costa tomada de coqueirais, as praias, as backwaters (canais de água salobra que ficam no interior do estado, nos quais você pode passar uns dias dormindo num “barco-casa”, passeando por aí), os curries de peixes e frutos do mar, muito leite de coco, a tradição ayurveda, o kathakali (espécie de teatro, misturado com dança), um tipo de arte marcial de nome dificílimo, Kalaripayattu, e por anos de governo comunista.

a costa - seria linda, não fosse a sujeira que não se vê na foto

Nós ficamos apenas em Fort Kochi, uma antiga colônia portuguesa, fundada no século XVI, por onde passou e terminou seus dias o ilustre Vasco da Gama. A primeira igreja construída na Ásia, segundo o guia, ainda está lá, a igreja de São Francisco. Na simpática vila, há ainda um antigo bairro judeu, com uma sinagoga preservada até os dias de hoje. O slogan do governo local é, nada mais, nada menos, o seguinte: “Kerala, God’s own country” (Kerala, o país de Deus). Muito modesto, lembrando nosso estilo brasileiro.

O cenário de Kochi é totalmente oposto ao que já vimos nos lugares pelos quais passamos no norte da Índia. Lá, tudo é verde. No início da monções, agora, chovia todos os dias, mantendo a temperatura extremamente agradável e similar ao clima do nordeste brasileiro – uma benção para quem vem de Delhi, onde a média dos últimos meses é de 42 graus, muita poeira e nem sinal de chuva no céu. No mais, casinhas pequenas, árvores frondosas, vacas robustas e saudáveis, muitas cabras à beira mar, várias igrejas, pescadores, moleques jogando futebol. Dizem que lá o número e homens e mulheres é equilibrado (diferente do norte, onde há muito mais homens), mas quase não víamos senhoras andando pelas ruas da cidade, ao menos no final de semana.

futebol na lama

Uma cena engraçada: nossos amigos Claudia e Jan se animaram para alugar duas lambretinhas, assim poderíamos conhecer melhor a ilha, passeando com tranquilidade. Tudo certo, foi ótimo o passeio. Pouco antes de devolver as lambretas, porém, resolvi me arriscar a dirigir uma delas pela primeira vez na vida. Nada além de uma volta no quarteirão. Claro, com a minha incrível destreza, caí com a moto pouco antes de voltar ao ponto de partida, o nosso hotel. Havia uma grande praça em frente, lotada de caras jogando futebol e críquete – com certeza uns cem. Um segundo após meu tombo, quase todos estavam em volta de mim e da motoca, como um enxame de abelhas, falando sem parar empurrando a moto e apontando para o meu ombro esfolado. O susto da multidão foi maior que o da queda. Mais uma prova de que, na Índia, você nunca está sozinho; na alegria ou na tristeza, tem sempre um monte de gente a seu redor.

chinese fishing-nets - grandes redes usadas pelos pescadores

2 Comentários

Arquivado em relatos

2 Respostas para “diários de lambreta ou “god’s own country”

  1. Silvia

    Não basta a aventura cotidiana de morar na Índia e vc ainda ousou andar em uma lambretinha indiana??? E só na Índia para a religião e o comunismo se encontrarem…

  2. Que emocionante! Passear de lambreta na região do Kerala!! Vocês vão ter histórias pra contar pros filhos, netos, vizinhos… Muito bom! Um beijo grande!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s