Arquivo da tag: gurgaon

a noite de shiva

Finalizados alguns (grandes) projetos, voltamos!

Sim, sim, no Brasil já é carnaval. E aqui, só desengano… Nem se pensa nisso, a gente esquece que o feriado existe, não planeja viagem, nem se vai ou se não vai brincar. Uma época do ano como todas as outras. É triste, sim, sim.

Mas na verdade a Índia é um grande carnaval, sempre cheio de gente nas ruas, barulho, cheiro de mijo, lixo no chão. Muito suor, apesar de pouca chuva (aqui em Delhi) e raras cervejas. Sexta passada, por exemplo, foi o dia da grande noite de Shiva, ou Maha Shivaratri. Na lua nova da noite mais longa do ano, eles rezam e meditam para lorde Shiva.

Em homenagem ao nome deste humilde site, fomos na sexta ao tempo de Shiva em Gurgaon. É um lugar com uma estátua colossal do deus, que se vê ao longe na estrada que vai até Delhi (veja mais nesse post). Sempre passávamos por ali e imaginávamos como seria o tal lugar visto de perto. Pois sexta foi o dia de conhecê-lo por dentro. Aproveitamos a visita (e disposição!) da Alessandra e da Helena para entrar um pouco no espíritro do Maha Shivaratri.

a multidão e shiva ao fundo

Mas nem tudo esteve perdido para o carnaval indo-brasileiro, pois no sábado brincamos um pouquinho na deliciosa festa carnavalesca dos amigos Eric e Marcela, com direito a confete e serpentina!

1 comentário

Arquivado em relatos

e choveu

Ontem, pela primeira vez, vi a verdadeira chuva de monções em Gurgaon. Choveu, choveu e choveu. O céu ficou plúmbeo às 3 horas da tarde, uma umidade tremenda e depois muita água, muita água mesmo. Fiquei admirada vendo o dilúvio pela janela.

Saímos de carro e vimos o caos em que se transforma a cidade. Formam-se verdadeiras lagoas nas ruas, o trânsito pára (o de São Paulo é fichinha perto disso aqui), os carros ficam ilhados, assim como um pequeno burrico que vimos, “preso” na calçada porque não conseguia atravessar a grande poça que se formou em volta dele.

Ela vem como uma bênção, a chuva. Num clima tão seco, passei o último mês olhando todos os dias a previsão do tempo para ver se tinha esperança das monções enfim chegarem (esse ano estão bastante atrasadas, o que gera um monte de problemas para o país). Mas parece que agora elas vieram para ficar!

Adeus poeira, viva a lama. Benditas sejam as monções.

poucos tinhas guarda-chuvas ontem

poucos tinham guarda-chuvas ontem

3 Comentários

Arquivado em detalhes

kulfi

picoles protegidos do calor

picolés protegidos do calor

2 litros de leite + 10 sementes de cardamomo + 15 gramas de amêndoas + 15 gramas de pistaches + 6 colheres de sopa de açúcar.

Esta é a versão  indiana para um clássico sorvete de doce de leite! Uma das minhas sobremesas preferidas na culinária local.

Este sábado, pela manhã, ao sair do centro ayurvédico Kerala aqui em Gurgaon, após uma sessão de massagem, encontrei um vendedor ambulante de kulfi. No carrinho tinham três tamanhos, de 5, 10 e 15 rúpias, e os palitinhos do sorvete eram feitos de bambu.  Mas o que realmente impressionou foi a linda pintura de Shiva abençoando aqueles que se refrescavam com a doçura do picolé!

calmo vendedor passa pelas ruas vazias de gurgaon tocando o sino em busca de um bom fregues

calmo vendedor passa pelas ruas vazias de gurgaon, tocando o sino em busca de um bom freguês

Mesmo com a proteção de Shiva, optei por seguir meu caminho para casa em segurança, sem o sabor do kulfi na boca!

(fotos e texto por Luís)

1 comentário

Arquivado em detalhes

shiva no cinema

Assistimos ontem a um filme da diretora indiana Mira Nair, que no Brasil ganhou o título de Casamento à indiana [Monsoon Wedding, 2001]. Eu havia visto o filme há muitos anos no cinema em São Paulo, quando nem sonhava em conhecer a Índia. Me lembro que na primeira vez tudo parecia meio esquisito naquela trama, sobretudo o fato do casamento ser arranjado pelos pais dos noivos. Isso continua sendo incompreensível para nós, claro, mas digamos que não é mais um choque. Luis conta sobre o colega do trabalho, mais ou menos da nossa idade, ter por fim arrumado uma noiva – ou melhor, depois de quatro moças que foram apresentadas pelos pais, ele finalmente escolheu aquela que seria a futura esposa. “Mas a moça podia recusar, se não tivesse gostado dele!”, me conta o Luis, mostrando que a mulher também tem alguma voz durante o arranjo do matrimônio. Não que isso vá mudar alguma coisa, mas enfim… A conclusão é que o feliz casal (e as duas felizes famílias) irá se casar em dezembro, e para eles está tudo certo.

Nossa amiga Mari, que passou uma intensa temporada de cinco meses aqui na Índia, fez um belo relato do assunto em seu blogue. Aprendam mais sobre os casamentos indianos neste link.

Mas voltando ao filme, não é preciso dizer que a percecpão dele foi bem distinta dessa vez. A história se passa em Delhi, bem na época das monções – da qual nos aproximamos agora –, e pudemos reconhecer vários lugares da cidade que já se tornaram familiares para nós. Entre eles, qual não foi a surpresa quando apareceu a imagem do Shiva que vemos sempre que passamos pela já citada NH8 (o tal Shiva em Gurgaon autêntico). A filmagem foi como a nossa visão costumeira, pela janela do carro. Ironias da vida, sempre a rir de nós (isso parece acontecer com maior frequência nessa nossa passagem pela Índia).

Bom, fica a recomendação do filme, fácil de encontrar em DVD por esses lados.

Deixe um comentário

Arquivado em detalhes

il ritorno

loja de chás em Delhi

loja de chás em Delhi

Depois de um mês e pouquinho fora, estou de volta a Gurgaon – a tempo de impedir que o Luís se converta ao sikhismo, coloque um turbante e nunca mais corte a barba nem o cabelo (vejam o texto anterior a esse, com o título  dramático).

Ir e voltar à Índia dá muito o que pensar. Depois de passar por aqui, parece que passamos a prestar atenção a coisas nunca antes percebidas. Como disse a vários amigos na passagem pelo Brasil, se o tempo aqui não valer para outra coisa, ele certamente vale para colocar a cabeça para funcionar. A cabeça não para, aqui e fora daqui. Não faz 24 horas que cheguei e deveria estar capotada por causa do fuso-horário, mas não. Estou “ligada”, ainda que não tenha saído de casa, parece que a cabeça gira de novo a mil por hora. Mesmo os sonhos são frenéticos, os mais loucos que já tive.

Ao pegar o avião no aeroporto de Paris já somos lembrados de como tudo é diferente por aqui. Os olhares, a forma de caminhar, as malas, o jeito de comer. Quando o avião pousa em Delhi, o trânsito na pista de pouso já relembra o que acontece nas ruas: caos, engarrafamento, freiadas bruscas. A Índia não lhe deixa ficar indiferente.

Logo vem o golpe do calor, 38 graus às 23h00. Hoje estou feliz da vida com uma rápida pancada de chuva, que cai de lado, bem fininha, e chegou empurrada por um vento forte e  abafado. Mas foi ligeira e já parou. Estou curiosa para ver as monções.

Foi difícil voltar, como eu pensava mesmo que seria. Mas estou pegando fôlego para enfrentar a nova etapa dessa empreitada indiana. E escrever aqui, é sempre um jeito de sentir vocês próximos, queridos amigos/leitores.

4 Comentários

Arquivado em relatos

o nosso shiva

Quando escolhemos o nome do blogue, o fizemos de forma meio aleatória, sem saber muito sobre Shiva e menos ainda sobre Gurgaon. Mas heis que ao chegar aqui nos deparamos com uma estátua gigantesca de “Lord” Shiva, na inóspita NH8, a estrada que liga Gurgaon a Delhi, quase na altura do aeroporto Indira Gandhi. Toda as vezes que passamos por lá, pensamos: temos que tirar uma foto para o blogue. Mas sempre é rápido demais ou não temos máquina ou já é noite, muito escuro. Por isso, resolvi usar uma imagem emprestada do “nosso” Shiva, patrono deste caderno de viagens virtual.

Apresentamos, caros leitores, o verdadeiro Shiva em Gurgaon:

shiva_gurgaon

Lord Shiva protege os motoristas da NH8 (foto: Deepak?)

 

4 Comentários

Arquivado em detalhes

em falta

que absurdo… faz um mês que não publicamos nada no blogue. E é curioso, pois quase todos os dias falamos sobre algo curioso da vida aqui e dizemos: precisamos escrever  sobre isso no blogue. Mas, acho que ficamos esperando pelo texto ideal, feito com calma e muita reflexão, quando, talvez, devêssemos simplesmente escrever coisas curtas, impressões. Pois a sensação de viver neste lugar é muito esta. Todo dia acontece alguma coisa inusitada, esquisita, diferente. Todo dia você passa um pouco de raiva, pois as coisas não são fáceis, mas ao mesmo tempo sempre algo lhe surpreende, no bom sentido.

Às vezes você sai pela rua e vê um cara andando de bicicleta com um macaco na garupa. Às vezes você encontra elefantes. De outra feita, visita uma academia de ginástica super-ultra moderna e vê uma mulher correndo na esteira de sari e sandálias. Um dia você pergunta para a professora de hindi como fazer para se livrar das pombas que emporcalham toda a varanda, e ela dá um risadinha e diz: “você pode fazer como os indianos, o segredo é dar comida para as pombas”. Ao que respondo: “mas se eu der comida elas nunca irão embora!”, e ela, “bem, verdade, elas vão ficar na sua varanda para comer, mas vão cagar na varanda do vizinho, pois nunca sujam o lugar onde recebem comida”. Resignada, penso que todos os vizinhos devem alimentar as pombas do prédio, e elas se reúnem para cagar aqui em casa, com vontade!

E as vacas… caramba, agora que a temperatura média é de 40 graus na sombra (que sombra?), elas parecem ter se multiplicado. As ruas de Gurgaon estão tomadas. Mas o louco disso tudo é que nos acostumamos a elas, uma hora passam a fazer parte da paisagem. Assim como a sujeirama sem fim começa a ficar mais natural, seus olhos não saltam ao ver as montanhas de lixo. Você pensa, “quanta porcaria”, mas ao mesmo tempo se conforma com isso e fica contente em manter em casa um santuário de limpeza e higiene.

Porém não é possível se acostumar a certas coisas. A miséria nas ruas, as crianças pedindo, os mendigos esquálidos, mutilados, batendo nos vidros do carro e pedindo comida insistentemente. O jeito como são tratadas as mulheres, que fazem todo o serviço pesado. E o olhar sacana dos homens para nós, mulheres não-indianas, simplesmente por não sermos indianas – com tudo que isso acarreta no imaginário sexualmente reprimido desses caras. Acho que nunca vou me acostumar a esses olhares, esses que nos amedrontam ao pensar em sair de casa, que nos privam da liberdade aqui. Esse é a parte difícil da Índia, com a qual tenho que lidar e lutar sempre.

imagem de Shiva (se não me engano) em Old Delhi

imagem de Shiva (se não me engano) em Old Delhi

2 Comentários

Arquivado em relatos