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tudo que você queria saber

sobre um “baba” indiano, mas não tinha coragem de perguntar.

Os babas, sadhus ou homem santos são aqueles tipos esquisitos que muitas vezes aparecem como a imagem estereótipo da índia. Eles têm a barba comprida, o cabelo também, podem estar cobertos de cinzas, alguns passam anos com um dos braços levantado, outros andam com facas e espetos enfiados na pele ou se sentam sobre camas de pregos.

Esses seres misteriosos se reuniram esse ano para um grande festival religioso hindu, o Kumbh Mela, que acontece às margens do rio Ganges na cidade de Haridwar. O encontro acontece a cada doze anos e parece que tem a ver o néctar sagrado que caiu de um pote em lugares diferentes da terra, quando era disputado por deuses e demônios. Mas confesso não saber muito mais sobre a história…

Um dos nossos  mais recentes visitantes, porém, o Philippe, veio para a Índia com o projeto de perguntar coisas aos babas no Kumbh Mela e ver o que os caras têm a dizer. Qualquer pessoa pode enviar sua questão, desde a mais existencial até as coisas concretas, como o aquecimento global ou a relação dos babas com o mundo da internet. Os vídeos e espaço para perguntas aos homens santos estão no site “o baba responde“.

Este vídeo é uma das respostas de um guru que o Philippe entrevistou:

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Arquivado em detalhes, viajantes

raksha bandhan

Hoje é feriado na Índia. Uma festa hindu, conhecida como Rakhi ou Raksha Bandhan, o nome completo. Rakhi também é a pulseirinha vermelha que se vê em tudo quanto é lojinha por aqui. É um tipo de cordão, bem simples, para ser amarrado, e no meio sempre traz algum símbolo (de deuses hindus até hello kitty ou pokemon).

O feriado de hoje é o dia de se amarrar a tal pulseira. A coisa parece ser feita desse modo: segundo a tradição, a irmã amarra o amuleto no pulso do irmão, simbolizando um pedido de proteção. Em troca, o irmão lhe dá um presente, em geral um doce, como agradecimento. E isso define o Raksha Bandhan, expressão que pode ser traduzida por “o laço de proteção” (mais ou menos).

Fiquei pensando que não temos nada parecido na nossa cultura. Há dia dos pais, das mães, das crianças, natal etc., mas nada que poderia ser chamado de um “dia dos irmãos”. Claro que essas datas são super comerciais e acabam se desvirtuando em trocas forçadas de presente, mas justo por isso fiquei pensando que a ideia simbólica do Rakhi tem sua beleza.

Tenho uma irmã e dois irmãos e eles são das pessoas mais próximas e queridas na vida – e que fazem uma falta tremenda aqui na distante Índia. Ter irmão é umas das melhores coisas do mundo. Não há dúvida de que eles sempre me protegeriam se eu estivesse em apuros, do mesmo jeito que eu faria de tudo para protegê-los quando precisassem de mim. O pequeno de gesto de amarrar uma fitinha, me fez pensar muito nos meus irmãos hoje. Queria estar pertinho para dar uma pulseira de Rakhi a cada um dos três.

um dos tipos da pulseirinha

um dos modelos da pulseirinha

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minha mulher viajou e fui curar a solidão no templo

Como muitos já sabem, já viram ou ouviram, a Julia foi passar uns dias na Alemanha para se aprofundar na pesquisa do mestrado dela e depois rumou para o seio da família em Sampa.

Eu, como não pude fazer parte desta deliciosa viagem, fiquei aqui na Índia acompanhando as previsões do tempo: MIN 39, MAX 45 , e cumprindo o dever, que foi afinal o motivo inicial desta aventura indiana.

Durante a semana aproveito a solidão e fico no escritório ate o olho fechar, então quando chego em casa não há sequer um momento para sentir a solidão. Como no final de semana não posso me ocupar trabalhando 14hs por dia, resolvi que teria que viajar logo no primeiro.

Os nossos amigos da colônia brasileira em Gurgaon Ricardinho e Manu estavam planejando visitar Amritsar, acompanhando um amigo que se encontrava de passagem pela Índia.

Amritsar fica no estado do Punjab, norte da Índia, uma região com uma forte e rica agricultura e um dos grandes produtores de trigo do país. A cidade, localizada no centro geográfico do estado do Punjab, já foi muito importante, mas devido a partilha após a independência, em 1947, acabou ficando na fronteira com o atual Paquistão. Mas a principal atração de Amritsar não é nem a fronteira nem a produção de trigo, mas sim o Golden Temple.

O Golden Temple é a Meca dos Sikhs, uma religião dissidente do hinduísmo e muito conhecida pelo trabalho de caridade que realiza em todos os seus templos ao redor da Índia e do mundo. Mas, como estou ainda na minha fase inicial de estudos religiosos indianos, nao vou me arriscar a explicar aqui mais sobre a história dessa religião e seus princípios. Quem sabe num futuro próximo, quando minha jornalista historiadora voltar, faremos uma descrição mais aprofundada da religião sikh!

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O que gostaria de compartilhar com todos foi a minha visita ao templo, realmente uma experiência inesquecível e com certeza digna de vários retornos. Sendo o principal centro da religião, ele atrai diariamente milhares de visitantes.

Ao chegar no templo é preciso retirar os sapatos e deixá-los num guarda-volumes, comprar um pano para cobrir a cabeça e, antes de entrar no sagrado local, atravessar um lava-pés comunitário. Ao passar por esta etapa você percebe a força e importância do lugar, uma vez que muitos dos fiéis se agacham e levam algumas gotas daquela água à boca, como uma espécie de benção.

Chocado com esta chegada, ergui a cabeça e vi com os olhos doidos de tanta luz o sagrado templo dourado, rodeado por um lago e situado no centro do enorme complexo religioso.

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Ao redor do lago haviam milhares de pessoas, roupas coloridas, turbantes. Alguns homens se banhavam, outros rezavam sentados no chão. Rumamos então para a passarela que dá acesso ao tempo dourado, o número de fiéis é incrível. Demoramos 1h15min nesta fila para atingir o centro sagrado, de onde descobrimos a origem da música que se espalhava por todo o complexo religioso. Era como uma pequena banda, todos sentados no chão, e o vocalista lia o livro sagrado dos Sikhs numa voz melancólica e ininterrupta. Ao lado dos músicos um homem distribuía pequenas bolachas feitas de açúcar e água.

Ao sairmos do interior do templo fomos visitar a cozinha comunitária, que serve gratuitamente mais de 12 mil refeições. Como podem imaginar, o meu maior interesse não era comer naquele local sagrado, mas sim entender o seu funcionamento e ver todos trabalhando para gerar aquele volume enorme de comida. Logo na entrada vemos sentadas no chão quase cem pessoas, descascando e picando os legumes: cebolas, abóboras, alho, batatas. Um pouco mais para dentro, estava a produção de chapatis (primo indiano da tortilla, feito de trigo), eram três fileiras com vinte pessoas em cada e uma grande chapa produzindo dezenas de pães por minuto. No mesmo local, estava sendo preparado o dahl (tipo um caldo de lentilha, base da comida Indiana) num enorme caldeirão de cobre sobre labaredas de fogo geradas pela queima de grandes toras de madeira, uma cena quase medieval.

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Como forma do trabalho de caridade, o templo abre suas portas para todos os fies que ali quiserem dormir. Uma amiga nossa brasileira, a Mari, dormiu ali e sua experiência me motivou a fazer o mesmo. O que realmente recomendo a todos, pois o templo durante a noite é um lugar muito interessante. O vocalista da banda encerra a cantoria à meia noite, mas as pessoas não param de rezar de forma independente durante toda a madrugada. Fomos dar uma volta às 2:30 da manhã e vimos toda aquela passarela de mármore ao redor do lago forrada de gente, um silencio absoluto e nos cantos alguns grupos cercavam seus sacerdotes e cantavam e rezavam quase como um murmúrio.

Antes do primeiro raio de sol, a musica central se inicia e todos se levantam para realizar a reza matinal. São 5hs da manha e o templo esta cheio de vida. Dormi basicamente 3hs e fiquei durante a noite pensando na força da religião e na forma como acolhem as pessoas.

Saí do templo e peguei um voo de 1h até Delhi.

Quando a Julia voltar quero levá-la para lá. Recomendei a todos os meus parentes e amigos que vierem para a Índia que reservem pelo menos duas noites para experimentar este lugar.

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terra de pelados

Apesar da dominante presença do hinduísmo, a Índia tem uma série de outras religiões das quais pouco ou nada sabemos. Uma dessas, que parece ter surgido a partir do hinduismo, é o jainismo. Eles têm uma espécie de profeta, Jain, que sempre é retratado como um homem nu – as genitálias à mostra, inclusive. Parece que podemos identificar os jainistas sobretudo pelo fato de alguns de seus seguidores não usarem roupa, uma forma de impedir que matem (sem querer) qualquer ser vivo. Eles andam também com uma espécie de espanador, para que não pisem nem mesmo em um inseto, um organismo invisível que seja. No nosso mesmo caminho do Rajastão, vimos um cena muito significativa neste nosso curto período indiano.

Viajávamos de carro, quando, no lado oposto ao nosso da estrada, surgiu  uma comitiva de pessoas, bem vagorosas, segurando algumas poucas bandeiras de cores fortes, e, no meio delas, um homem completamente nu, descalço, caminhando na maior placidez. Segurava somente o tal espanador, e andava com um olhar para o infinito. Nada o perturbava. Atrás dele, mais um seminu, usando apenas uma espécie de tanga, um pano branco amarrado (este que aparece na foto).

caminhada

pela estrada

Luís concluiu que foi a situação que mais o marcou, até então. Eu tive uma reação muito parecida. Na hora ficamos boquiabertos, parados no momento daquela pequena procissão de um homem nu – nu por uma causa tão nobre: não matar um ser-vivo sequer. E nós ali naquele carro, com ar-condicionado, diesel, rádio, telefones, blackberry, calças, casacos meias e sapatos. Câmeras fotográficas, mochilas e mais mochilas. Coisas pelas quais muitas vezes se mata e se morre. Enquanto o homem nu segue sem nada além de seu espanador. Parece que precisamos de tanto, mas no fim, é possível com tão pouco. A Índia insiste em escancarar isso: como o ser humano pode viver nas situações mais desprovidas, mais precárias, com menos, cada vez menos ou quase nada. E, sobretudo, “nonada”, como diria um sábio brasileiro.

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calcinhas e protestos

cartaz de protesto para o dia de São Valentim (observem o tamanho da calcinha)

Acabo de ler esta notícia no site da BBC.

Algumas semanas atrás, um grupo fundamentalista hindu chamado Sri  Ram Sena atacou mulheres que estavam num bar em Mangalore, no sul da Índia. Eles perseguiram, bateram e chutaram as moças declarando que elas estavam “corrompendo os valores indianos” e que era “inconcebível uma mulher consumir álcool”.

O líder do grupo Pramod Mutalik, que foi preso e liberado em seguida, declarou que os homens dele “tiveram razão no que fizeram”, com a justificativa de que eles estavam apenas preservando a cultura e os valores morais da Índia e que a mídia estava usando o “pequeno acidente” para denegrir a imagem do grupo.

Com a proximidade do dia de São Valentim (14/02), data mais do que condenada pelos grupos conservadores do país, um movimento de mulheres indianas indignadas com os ataques da Mangalore clamou todos a fazerem um peculiar protesto: enviar calcinhas cor-de-rosa para o grupo Sri Ram Sena nesse dia dos namorados. “Mais de cinco mil pessoas, incluindo homens, entraram para o grupo do Facebook que se intitula ‘a associação das mulheres frequentadoras de bares, livres e avançadas”, relata a matéria da BBC. Mutalik afirmou que seus homens irão protestar contra o dia São Valentim, no próximo sábado.

Como vocês podem notar, ir ao bar não é tarefa muito simples para mulheres aqui na Índia.

Mais sobre mulheres indianas no comentário do Paletó de Linho.

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ainda sobre Jaipur

Continuando a mensagem anterior, caros leitores, volto a Jaipur.

 

riquixás de bicicleta nas ruas da cidade

riquixás de bicicleta nas ruas da cidade

 

No trem que percorre o trecho Delhi-Jaipur, os olhos não conseguem abandonar a paisagem que aparece na janela. Há duas marcas presentes todo o tempo na estrada: pessoas e lixo, muito lixo. A sujeira beira o tempo todo os campos floridos, tomados do amarelo da canola. E vemos que as pessoas vivem mesmo nessa lama toda, misturadas a esses restos. Vacas e búfalos magros pastam em meio a montes imundos, nos quais também brincam algumas crianças, muito novas. Logo surgem os primeiros camelos, puxando carroças no campo. Estamos no Rajastão.

Em meio aos trilhos, nas estações em que paramos pelo caminho, vemos famílias inteiras de cócoras, provavelmente vivendo nesse lugar. A miséria não tem pudor em se mostrar. É nos trilhos também que várias pessoas se agacham para fazer coco, sem qualquer cerimônia. Em Delhi, toda hora vemos homens mijando nas calçadas, bem à vontade, então parece que a prática é comum. E vamos constatando algumas coisas desse país tão ímpar: público e privado não são coisas distintas, não há separação entre essas instâncias. A cada momento isso se confirma mais. 

A chegada à estação de Jaipur nos deixa com a cabeça atordoada. Quando levantamos para sair do trem, entra um batalhão de homens uniformizados para rapidamente retirar as malas de algum figurão político ou militar que viajava no nosso vagão. Eles quase nos derrubam, correndo para que o tal sujeito não ficasse um segundo a mais do que o necessário no meio do populacho. E logo chega a nossa vez de ser assediados: um enxame de taxistas e puxadores (isso mesmo, os “pullers“) de riquixás voam em cima de nós e oferecem passeios para todo lado, hotéis, lojas, restaurantes, isso e aquilo. Temos que apressar o passo e brigar muito com um deles para que nos leve até o hotel por um preço justo. Conseguimos, por fim. 

Então, fomos em quatro pessoas – mas isso não é nada para os padrões locais – num riquixá rumo aos muros da cidade antiga. O trajeto de riquixá já é uma atração – provavelmente arriscada. E quando passamos pela primeira porta, vem o furacão. Cena de filme, Indianna Jones, aqueles mercados lotados de gente, macacos para todo lado, vacas deitadas com placidez na rua, búfalos para lá e para cá, vendas de tudo quanto é coisa, homens conversando longamente, sentados nos colchões de suas lojas, sem preocupar-se com possíveis clientes, feiras de legumes e frutas com todas as cores e cheiros, mulheres desfilando com toda sorte de saris e panos e pinturas de henna, anéis, pulseiras e tornozeleiras que trazem pequenos guizos sinalizando sua presença. Templos hindus com músicas altíssimas, frenéticas, atraem devotos que deixam seus sapatos na entrada e entram levando oferendas como côco seco e colares de flores naturais para os deuses. Mulheres muçulmanas cobrem as cabeças e parte do rosto com suas  vestes negras, e pequenos detalhes em dourado, muito vivo. Viramos uma esquina, e encantadores de serpentes tocam sua espécie de flauta para que as najas saiam do cesto e eles ganhem mais alguns cobres dos turistas. 

as najas não estavam muito animadas

as najas não pareciam muito animadas

E, aqui e ali, palácios suntuosos, deslumbrantes, alguns bem preservados, outros bem menos. A herança dos marajás do Rajastão – ainda hoje a família do último deles é dona dos palacetes e fortes que abrigam os hotéis mais sofisticados da cidade. Elefantes e camelos maltratados são oferecidos aos turistas, para que façam um lúdico passeio até o forte de Âmbar, um lugar belo e impressionante (mas que na base tem um lago tomado pelo lixo). 

E, pensamos: isso tem muita “cara” de Índia, da ideia de Índia que criamos no nosso imaginário ocidental, pouco ambientado com esse mundo. Mas a Índia parece ser isso, também. E não há dúvida de que ela pode ser muitas coisas, muitas faces, muitos cheiros, muitos recantos. Muitas formas de tratar o ser humano e do ser humano poder existir. A sensação é, por fim, de um grande e insondável mistério.

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