ainda sobre Jaipur

Continuando a mensagem anterior, caros leitores, volto a Jaipur.

 

riquixás de bicicleta nas ruas da cidade

riquixás de bicicleta nas ruas da cidade

 

No trem que percorre o trecho Delhi-Jaipur, os olhos não conseguem abandonar a paisagem que aparece na janela. Há duas marcas presentes todo o tempo na estrada: pessoas e lixo, muito lixo. A sujeira beira o tempo todo os campos floridos, tomados do amarelo da canola. E vemos que as pessoas vivem mesmo nessa lama toda, misturadas a esses restos. Vacas e búfalos magros pastam em meio a montes imundos, nos quais também brincam algumas crianças, muito novas. Logo surgem os primeiros camelos, puxando carroças no campo. Estamos no Rajastão.

Em meio aos trilhos, nas estações em que paramos pelo caminho, vemos famílias inteiras de cócoras, provavelmente vivendo nesse lugar. A miséria não tem pudor em se mostrar. É nos trilhos também que várias pessoas se agacham para fazer coco, sem qualquer cerimônia. Em Delhi, toda hora vemos homens mijando nas calçadas, bem à vontade, então parece que a prática é comum. E vamos constatando algumas coisas desse país tão ímpar: público e privado não são coisas distintas, não há separação entre essas instâncias. A cada momento isso se confirma mais. 

A chegada à estação de Jaipur nos deixa com a cabeça atordoada. Quando levantamos para sair do trem, entra um batalhão de homens uniformizados para rapidamente retirar as malas de algum figurão político ou militar que viajava no nosso vagão. Eles quase nos derrubam, correndo para que o tal sujeito não ficasse um segundo a mais do que o necessário no meio do populacho. E logo chega a nossa vez de ser assediados: um enxame de taxistas e puxadores (isso mesmo, os “pullers“) de riquixás voam em cima de nós e oferecem passeios para todo lado, hotéis, lojas, restaurantes, isso e aquilo. Temos que apressar o passo e brigar muito com um deles para que nos leve até o hotel por um preço justo. Conseguimos, por fim. 

Então, fomos em quatro pessoas – mas isso não é nada para os padrões locais – num riquixá rumo aos muros da cidade antiga. O trajeto de riquixá já é uma atração – provavelmente arriscada. E quando passamos pela primeira porta, vem o furacão. Cena de filme, Indianna Jones, aqueles mercados lotados de gente, macacos para todo lado, vacas deitadas com placidez na rua, búfalos para lá e para cá, vendas de tudo quanto é coisa, homens conversando longamente, sentados nos colchões de suas lojas, sem preocupar-se com possíveis clientes, feiras de legumes e frutas com todas as cores e cheiros, mulheres desfilando com toda sorte de saris e panos e pinturas de henna, anéis, pulseiras e tornozeleiras que trazem pequenos guizos sinalizando sua presença. Templos hindus com músicas altíssimas, frenéticas, atraem devotos que deixam seus sapatos na entrada e entram levando oferendas como côco seco e colares de flores naturais para os deuses. Mulheres muçulmanas cobrem as cabeças e parte do rosto com suas  vestes negras, e pequenos detalhes em dourado, muito vivo. Viramos uma esquina, e encantadores de serpentes tocam sua espécie de flauta para que as najas saiam do cesto e eles ganhem mais alguns cobres dos turistas. 

as najas não estavam muito animadas

as najas não pareciam muito animadas

E, aqui e ali, palácios suntuosos, deslumbrantes, alguns bem preservados, outros bem menos. A herança dos marajás do Rajastão – ainda hoje a família do último deles é dona dos palacetes e fortes que abrigam os hotéis mais sofisticados da cidade. Elefantes e camelos maltratados são oferecidos aos turistas, para que façam um lúdico passeio até o forte de Âmbar, um lugar belo e impressionante (mas que na base tem um lago tomado pelo lixo). 

E, pensamos: isso tem muita “cara” de Índia, da ideia de Índia que criamos no nosso imaginário ocidental, pouco ambientado com esse mundo. Mas a Índia parece ser isso, também. E não há dúvida de que ela pode ser muitas coisas, muitas faces, muitos cheiros, muitos recantos. Muitas formas de tratar o ser humano e do ser humano poder existir. A sensação é, por fim, de um grande e insondável mistério.

5 Comentários

Arquivado em relatos

5 Respostas para “ainda sobre Jaipur

  1. Rosenthal

    Parece que a India é um gosto adquirido…ha de ser conquistado. Nao parece que vem automaticamente…
    bjs

  2. marisimas

    recortei umas fotos com pessoas para virarem escalas humanas pros meus 3ds. Capricha numas com elas em pé, sem cortar nenhum pedacinho!!!
    namastê!

  3. Livia

    Dá para sentir daqui os gostos, cheiros e ouvir os ruídos da Índia.

  4. patricia

    viajei pelo rajastão em 1992, revivo, lendo o que dizes, este viajandão…muitas cores e uma realidade que exige muito respeito no que se diz respeito às diferenças culturais.
    um beijo muito grande.

  5. Regiane Lessa

    Adorei todos os relatos !!! Dá pra viajar junto com vocês.
    Bjsss

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