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viver na Índia

Após quatro semanas no subcontinente, posso constatar que algumas coisas passaram a fazer parte do nosso cotidiano. Algumas delas:

1) na chamada millenium city, a gloriosa Gurgaon, a energia acaba umas vinte vezes por dia (sem exagero). Nós temos sorte de ter um robusto, infalível e barulhento gerador, 24 horas, que logo resolve o problema, mas ainda assim passa-se o dia a ligar e desligar os eletro-eletrônicos da casa, movimento sempre seguido de um praguejar por causa da queda da internet (no momento mais crucial de uma mensagem que não foi salva a tempo);

2) a poeira não acaba. Gurgaon e Delhi – lugares por onde tenho transitado – têm uma constante camada de pó, que não assenta nem diminui nunca. Misture isso à poluição pesada e pode-se imaginar a qualidade do ar. Parece que na época das monções melhora (leia-se: o que era pó, vira lama);

3) mesmo que você não ponha o pé para fora de casa durante um dia inteiro, é impossível sentir-se sozinho. A campainha toca todos os dias, ao menos uma vez, e pode ser um encanador (que você não sabe de onde veio, nem entende o que ele diz), uma moça oferecendo seus serviços de limpeza (com mímica, claro), vários supostos funcionários do condomínio pedindo diversas assinaturas para coisas que também não consigo decifrar para que servem. Não paro de conhecer pessoas aqui;

4) assim como a campainha, o telefone também está sempre ativo – não esqueçamos que a Índia é o paraíso dos centros de telemarketing. Não importa se a conta de telefone só irá vencer daqui a uma semana. Uma gentil funcionária da AirTel liga todo início de mês para certificar-se de que você recebeu o boleto direitinho e para lembrar o valor da conta. Just in case… O maior exercício é decifrar o que está sendo dito, mas já estou me adaptando;

5) mas os indianos gostam mesmo é de um papel impresso. Num lugar pré consciência ecológica (“pense antes de imprimir” etc., nem pensar) nada vale mais do que um papelzinho. Em qualquer instância. A caixa do correio todos os dias fica abarrotada de folhas e mais folhas inúteis. Para entrar em qualquer aeroporto ou trem você precisa ter o seu e-ticket (observem o nome, o conceito) impresso. Um e-ticket virtual não vale nada, estranhamente. Qualquer mortal só põe os pés nos aeroportos do país se mostrar o famigerado papel. E, junto com o seu passaporte, ele será lido e revisto por pelo menos quatro controladores no seu caminho até o avião. E ai de você se perder o canhoto do cartão de embarque (ainda que o avião já tenha feito todo o percurso e acabe de pousar no destino ou na escala).

Uma anedota ilustrativa, que aconteceu há poucos dias com nossos amigos Cami e Marcos, que vieram do Brasil nos visitar. Eles tiveram de adiar uma semana a viagem para cá, por conta de uma operação urgente de apendicite. Por isso, foram tentar remarcar o voo da Air India para Udaipur, o e-ticket comprado pela internet, óbvio. E qual não foi a surpresa ao descobrir que para mudar a data do voo era obrigatório comparecer ao escritório central da companhia aérea em Delhi (o do aeroporto não valia!), pagar a diferença em cash e, claro, depois de muitas horas de telefone, idas à agencia e tudo mais, apresentar o e-ticket impresso! Apesar de muito custo, todos saíram felizes, cada um com seu papelzinho na mão.

Voltaremos com mais peculiaridade do dia a dia na Índia. Até breve, caros leitores.

Trecho da MG Road, estrada que liga Gurgaon ao sul de Delhi

Trecho da MG Road, estrada que liga Gurgaon ao sul de Delhi (foto: Denise Teixeira)

Vista aérea de um terreno em Gurgaon (da janela do nosso quarto)

Vista aérea de um terreno em Gurgaon (da janela do nosso quarto)

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