como me tornei uma feminista raivosa

Antes de vir para a Índia, ou mesmo agora, quando me perguntam por que vim morar por essas bandas e respondo que foi, basicamente, por causa do trabalho do Luís, algumas vezes escutei (ou li no rosto da pessoa) coisas como “hum, que mulherzinha, largou o trabalho aqui e foi atrás do marido, virou dondoca”. Não com essas exatas palavras, claro, mas o sentido seria mais ou menos esse.  Abstenho-me de comentários (há!).

onde elas se escondem?

O curioso, porém, é que nunca um lugar (ou, talvez, uma situação) tinha antes me pegado tanto na questão feminina, no simples fato de ser mulher. Para um homem estrangeiro, a Índia é uma coisa, para uma mulher, é outra totalmente diversa. Um homem ocidental poderia considerar esse um dos lugares mais seguros – em termos de criminalidade – e não chamaria muita atenção ainda que andasse nu pelas ruas. Como mulher, não tenho a menor vontade de andar sozinha (mesmo que coberta da cabeça aos pés) por nenhuma parte dessa região norte.

O problema é real. Há muito mais homens que mulheres, para começar, e isso é resultado do alto índice de infanticídio de meninas, que são mortas pelas próprias famílias logo após o nascimento. A questão é bem prática, digamos: a filha mulher é um fardo, custa o dinheiro do dote (a ser pago à família do futuro noivo), e ainda por cima não servirá para cuidar dos pais na velhice, nem para perpetuar o nome da família. A história parece fora do tempo, talvez um par de séculos, mas é a realidade dos estados do norte da Índia (assim como ocorre na China, mas pela questão do filho único).

A taxa de estupros é alta (e leve-se em conta que a maioria das vítimas não denuncia os ataques, por medo da violência ainda maior por parte da polícia). Não foram poucos os casos de amigas estrangeiras que sofreram assédio de homens indianos em plena luz do dia, sem que ninguém em volta movesse um dedo para ajudá-las. Todos recomendam: não ande sozinha, não dirija sozinha, sobretudo à noite, não viaje de trem ou ônibus sozinha, ande com um spray de pimenta na bolsa. E, de fato, vemos pouquíssimas mulheres nas ruas. Há lugares em que elas virtualmente não existem. Raras vezes estão desacompanhadas.

Talvez a situação seja parecida em alguns países árabes radicais, não posso afirmar, mas o que me impressionou foi que em nenhum dos outros países que visitamos no Sudeste Asiático senti a mesma opressão (ou até supressão?) do gênero feminino. Até na Malásia, país islâmico, as mulheres estavam por toda parte. Muitas delas com a cabeça coberta, certo, mas ainda assim andando de metrô, nas ruas, trabalhando nos restaurantes, nas lojas, fazendo parte da vida além do espaço da casa. Mas onde raios se escondem as mulheres indianas?

Alguns homens tentam justificar: “nós valorizamos muito mais a mulher do que o fazem no Ocidente. Para nós, a mulher é uma joia rara, por isso temos que deixá-la fechada dentro de casa”. Pois é. Claro que há exceções, já é possível encontrar mulheres trabalhando em alguns escritórios, frequentando a universidade, ocupando cargos no governo, trabalhando como profissionais liberais e até podendo escolher os próprios maridos. Mas é uma porção diminuta, que mal aparece nesse gigantesco mar de homens.

5 Comentários

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5 Respostas para “como me tornei uma feminista raivosa

  1. Thomas Bussius

    Eu percebi que a questão da mulher na Asia é um tanto distinta da Europa e do Novo Mundo. Uma lástima.

  2. isso de poder olhar uma outra cultura (e a nossa também, claro) e pensar sobre ela, por mais difícil que seja, é uma experiência maravilhosa! Gostei muito do que li aqui.

  3. Flavia

    Oi Ju,
    Muito bom o seu texto! Isso mostra o quanto a mulher tem que ser cada vez mais forte para enfrentar os preconceitos, mesmo quando mascarados, como no caso do Ocidente.
    Bjs saudosos,
    Fla

  4. Júlia, essa defesa das “outras culturas” para atacar indiretamente a “perfida” judaico-cristã ocidental é de lascar, né? Muita gente que se quer boa engole esse cinismo de que “o cipoal de normas e restrições protegem a mulher” e tal. No mundo islâmico isso é comum. Alguns conhecidos relataram agressões no Islã contra mulheres despudoradas, as ocidentais que teimam em usar roupas sem mangas, mostrar braços e ombros… Eles agridem mesmo (talvez mais que assediam). Mas coberta ok. Na Índia a coisa está pior…

  5. Adriana Ribeiro

    Sim..Concordo com o amigo. Se queremos “respeito, antes de tudo,” devemos fazer-nos respeitar, e, de preferência, estando bem cobertas…Nós, como estamos indo ao lugar deles, só temos mesmo que nos adaptar…Não há muita escolha…apenas buscar ampliar a nossa capacidade de adaptação.

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