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aprendendo a ler, de novo

Como alguns de vocês sabem, estamos tentando aprender hindi por aqui. A estranhesa da língua é equivalente ao japonês, chinês, russo, enfim… idiomas com os quais não tenho a menor familiaridade. Mas como podemos nos virar bem usando o inglês (em Delhi, a maioria fala o básico), o aprendizado acaba ficando meio lento e o uso se restringe a algumas palavras enfiadas no meio de frases, tipo “price kia hai?” (qual o preço?), ou sentenças chaves como “me bevekuv nahi hoon!” (eu não sou idiota!) – essa fundamental para não ser enganado na hora de fazer algum pagamento. Além do mundialmente famoso “namastê” ou “namaskar”.

O mais divertido nas aulas, contudo, é aprender a ler em hindi. Uma segunda alfabetização, sem dúvida. O sentimento de, pela segunda vez, descobrir que som tem cada símbolo e depois começar a formar palavras com eles, é bárbaro. Esquecemos como é ter que realmente “pensar” para ler e para escrever, pois tudo sai tão automático. E eis que me pego de novo  juntando c + a, para dar “ca”, e depois sacar que “casa” começa com “ca”, do mesmo jeito que “ca”valo, e por aí vai.

Na primeira aula me senti totalmente impotente. Eu olhava para aqueles desenhos e eles não me diziam nada. Para reproduzi-los, outra dificuldade, saíram garranchos, traços feiosos e bem longe do modelo a seguir. Mas aos poucos está melhorando, já decorei alguns caracteres e fico caçando eles pelas ruas, tentando decifrar esse novo código.  A maior alegria foi conseguir encontrar o nome de uma cidade, na viagem que fizemos esse final de semana, numa placa escrita apenas em hindi. Fomos atrás dos sinais conhecidos e… pimba! Com duas letrinhas familiares, encontramos a dita cuja. Bahut achá (muito bom!)!

E assim me dei conta, pela segunda vez, de que aprender a ler dá uma sensação mágica, um estalo maravilhoso que nos possibilita fazer parte de um sistema; e quem sabe ser  – pelo menos um pouquinho – mais livre nesse mundo.

o alfabeto "chã", para "chamach" (colher).

o alfabeto "chã", para "chamach" (colher).

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em falta

que absurdo… faz um mês que não publicamos nada no blogue. E é curioso, pois quase todos os dias falamos sobre algo curioso da vida aqui e dizemos: precisamos escrever  sobre isso no blogue. Mas, acho que ficamos esperando pelo texto ideal, feito com calma e muita reflexão, quando, talvez, devêssemos simplesmente escrever coisas curtas, impressões. Pois a sensação de viver neste lugar é muito esta. Todo dia acontece alguma coisa inusitada, esquisita, diferente. Todo dia você passa um pouco de raiva, pois as coisas não são fáceis, mas ao mesmo tempo sempre algo lhe surpreende, no bom sentido.

Às vezes você sai pela rua e vê um cara andando de bicicleta com um macaco na garupa. Às vezes você encontra elefantes. De outra feita, visita uma academia de ginástica super-ultra moderna e vê uma mulher correndo na esteira de sari e sandálias. Um dia você pergunta para a professora de hindi como fazer para se livrar das pombas que emporcalham toda a varanda, e ela dá um risadinha e diz: “você pode fazer como os indianos, o segredo é dar comida para as pombas”. Ao que respondo: “mas se eu der comida elas nunca irão embora!”, e ela, “bem, verdade, elas vão ficar na sua varanda para comer, mas vão cagar na varanda do vizinho, pois nunca sujam o lugar onde recebem comida”. Resignada, penso que todos os vizinhos devem alimentar as pombas do prédio, e elas se reúnem para cagar aqui em casa, com vontade!

E as vacas… caramba, agora que a temperatura média é de 40 graus na sombra (que sombra?), elas parecem ter se multiplicado. As ruas de Gurgaon estão tomadas. Mas o louco disso tudo é que nos acostumamos a elas, uma hora passam a fazer parte da paisagem. Assim como a sujeirama sem fim começa a ficar mais natural, seus olhos não saltam ao ver as montanhas de lixo. Você pensa, “quanta porcaria”, mas ao mesmo tempo se conforma com isso e fica contente em manter em casa um santuário de limpeza e higiene.

Porém não é possível se acostumar a certas coisas. A miséria nas ruas, as crianças pedindo, os mendigos esquálidos, mutilados, batendo nos vidros do carro e pedindo comida insistentemente. O jeito como são tratadas as mulheres, que fazem todo o serviço pesado. E o olhar sacana dos homens para nós, mulheres não-indianas, simplesmente por não sermos indianas – com tudo que isso acarreta no imaginário sexualmente reprimido desses caras. Acho que nunca vou me acostumar a esses olhares, esses que nos amedrontam ao pensar em sair de casa, que nos privam da liberdade aqui. Esse é a parte difícil da Índia, com a qual tenho que lidar e lutar sempre.

imagem de Shiva (se não me engano) em Old Delhi

imagem de Shiva (se não me engano) em Old Delhi

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mandi

 

a chegada

a chegada

A pequena Kesroli, onde fomos com meu pai há alguns dias, e com minha mãe a Marina em outubro, fica na região de Alwar, no Rajastão. Esta localidade é um dos principais centros de produção de canola (rapeseed) do norte da Índia.

Na última viagem com meu pai e Julia (já relatada neste blogue) encontramos a região em pleno ritmo de colheita. Diferente do Brasil, aqui este é um trabalho que ainda tem enorme presença humana em todas as etapas, desde a colheita até a comercialização do grão.

Sabendo disso, convenci meus companheiros de viagem a fazer uma exploração no mercado local (em hindi, mandi), onde provavelmente poderíamos ver um movimento intenso e interessante de pessoas e mercadorias.

Saindo da estrada, iniciamos nossa aventura tentando chegar ao mercado com nosso pobre vocabulário hindi, de não mais de uma dúzia de palavras.

E ao chegar lá, descobri com meus próprios olhos o que todo mundo me relatava e que eu tentava mas era difícil imaginar. A forma de manuseio e comercialização da canola é muito bonita e um mundo totalmente distinto daquele que estamos acostumados na comercialização de grãos do cerrado brasileiro.

Melhor do que as minhas palavras, são as fotos que tiramos de todo o processo.

 

primeira etapa da colheita: as mulheres cortam manualmente as ramas da canola

primeira etapa da colheita: as mulheres cortam manualmente as ramas da canola

segunda etapa: máquina acoplada ao trator, usada para separar o grão da vagem

segunda etapa: máquina acoplada ao trator, usada para separar o grão da vagem

em vez de caminhões com 40 tonelas, a canola chega ensacada na carroceria de pequenos tratores

em vez de caminhões com 40 tonelas, a canola chega ao mercado ensacada na carroceria de pequenos tratores

a descarga manual dos tratores

a descarga manual dos tratores

a pré-limpeza dos grãos é feita manualmente, em lugar das grandes peneiras vibratórias dos silos brasileiros

a pré-limpeza dos grãos é feita manualmente, em lugar das grandes peneiras vibratórias dos silos brasileiros

muita gente envolvida no processo de padronização dos grãos

muita gente envolvida no processo de padronização dos grãos

homens do mandi

homens do mandi

o limpador de canola

o limpador de canola

Como vocês podem perceber, cada pequena viagem que fazemos aqui na Índia rende várias historias

texto: Luis Barbieri , fotos: Luis Barbieri e Julia Bussius

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