trem bala

por Priscila Spécie

CHAPATI E CHAI

CHAPATI E CHAI

CHAI CHAAAAI CHAAIIII !!!

CHAPATI E CHAI

Andar de trem na Índia é uma aventura incrível. É uma experiência inevitável para quem visita o país. Tão incontornável quanto passar por Paris sem nunca ter andado de metrô.

India Railway Paris Metro
<http://gallery.techarena.in/showfull.php?photo=9355>  (source for large view) http://www.ratp.info/orienter/f_plan_ang.php?loc=reseaux&nompdf=metro&fm=gif

Os trens indianos formam uma das maiores e mais usadas redes ferroviárias do mundo. Com uma extensão de mais de 64 mil quilômetros, cobre praticamente todo o país. São 9 mil trens de passageiros, transportando cerca de 18 milhões de pessoas por dia (5 bi por ano). O serviço prestado pela Indian Railways é monopólio do Estado, e em razão da magnitude do sistema ferroviário, a Índia conta com um Ministério próprio para essa pasta (Ministry of Railways < http://www.indianrailways.gov.in/&gt;).

Durante 5 meses, percorri mais de 3 mil km, passando alguns dias dentro de trens indianos: Delhi-Mathura-Del/ Del-Udaipur-Del/Del-Varanasi-Del/Del-Chandigarh/ Del-Agra/ Ahmedabad-Junagadh/ Goa-Calicut. As experiências foram as mais diversas; e os imprevistos, a regra.

estação de trem em Varanasi

As estações são sempre precárias, umas mais outras menos caóticas. Em Delhi, principalmente, é sempre uma luta para não se perder na multidão e encontrar o vagão nos horários de pico. Os bichos estão por todos os lados. Às vezes mais ratos (Old Delhi), noutras macacos (Varanasi). Pássaros e pombas produzindo o zumbido mais ensurdecedor de toda a minha vida (Chandigarh). As sempre sagradas vacas, dormindo no saguão junto aos passageiros (Mathura). As baratas são mais presentes dentro dos trens. Por essa razão um amigo já me recomendou não andar em AC (trens mais fechados por causa do ar-condicionado dificultam a entrada, mas principalmente a saída das cucarachas).

Viajei em pelo menos 5 classes de trens diferentes. Uma terceira classe em direção à Mathura, algumas 2nd class, muitas sleepers (geralmente triliches). A prioridade era viajar com os amigos e em quais condições pudessem. Às vezes passagens disponíveis para todos viajarem juntos resultavam em certo desconforto, compensado por uma nova experiência antropológica.

hora do "chai" no trem para Chandigarh

De Mathura para Delhi, já em posição semi-lótus por causa de uma imensa trouxa de roupas que ocupava o vão para as pernas entre os assentos de uma mesma baia, que já vinha compartilhada por 6 pessoas, uma senhora coloca sua filhinha no meu colo. Respondo com um sorriso cordial, até o momento em que a pequenina toda feliz esfregava um tipo de biscoito maizena babado para todos os lados. Diego, ao meu lado, fecha os olhos e pensa em voz alta: “por que todo indiano tem que comer a todo tempo, não importa onde ou quais circunstâncias?”.

Diz-se comum comprar uma passagem “reserva”. O corretor garante: se tiver que aguardar até 50 desistentes, tá dentro! Isso funcionou umas quatro vezes… até a viagem de volta de Varanasi para Delhi. Estávamos em 5 pessoas com dois assentos garantidos, aguardando desistências números 16/17/18, que não aconteceram. Resultado: uma noite de 14hrs inteira revezando os apertos antes de uma longa semana de trabalho depois de um intenso final de semana na cidade sagrada do Ganges. Incredible India!

dentro do trem

Com o tempo se aprende que o conforto se consegue fundamentalmente exercitando a paciência ou o espírito aventureiro para o imponderável. As memórias sobre e para onde me levaram os trilhos indianos são inesquecíveis. É como se tivesse resgatado parte da infância roubada, aquela da qual nos privaram o antigo Trem de Ferro e que, hoje, querem substituir, para poucos, por um projeto bilionário de um trem dos Jetsons, equivalente à construção de 170 km de metrô.

Nossa querida amiga Priscila viveu em Nova Delhi entre meados de 2008 e início de 2009.

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visita da sogra e do sogro

Muito antes de casar, eu já ouvia um dito popular que dizia que sogra é boa quando mora a uma distância em que ela não pode chegar nem de pantufas, nem com malas.

A primeira modalidade ainda não experimentei, mas sobre a segunda posso dizer que não concordo.

Acabamos de receber a visita dos pais da Julia em Delhi. Denise já esteve aqui antes e desta vez trouxe Thomas para conferir as paisagens indianas.

Nossos parentes, quando chegam à Índia, têm a tendência de permanecer mais em casa,  longas horas fazendo um balanço sobre a vida, o passado vivido e as angústias do presente. Muitas horas de conversa jogada no ar quente e seco da capital indiana.

São momentos de convivência única e intensa, um mimo completo.

Chegados da Suíça, eles trouxeram uma mala de presentes e mantimentos exóticos (queijos e salames dos mais variados modelos).

Durante a estadia, Thomas preparou-me marmitas para alegrar os dias no trabalho e Denise não deixou nossa geladeira sem uma bem arrumada sala de frutas.

Recomendo a todos que convidem seus parentes que moram longe para passar uma temporada por perto! Nossa casa está de portas abertas.

Denise e Thomas no aeroporto Indira Gandhi

Luis

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colheita do trigo, em transição

Para aqueles leitores mais antigos, que gostaram do nosso relato sobre a colheita de canola, aqui vão algumas imagens do nosso passeio do feriado da páscoa.

No norte da Índia, estamos em pleno processo da colheita do trigo, e podemos ver no estado de Haryana (onde fica Gurgaon) que os trabalhos estão intensos.

As mulheres são a  maior parte da mão-de-obra da colheita manual neste estado super machista. No entanto, podemos notar ao andar pelas estradas a presença de colheitadeiras mecanizadas, indicando que o processo de colheita aos poucos está se transformando.

Vamos trazer mais fotos sobre o processo de colheita, armazenagem e comercialização do trigo.

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outsourcing – índia

Quando eu estava na escola, tanto em São Paulo quanto em São Carlos, por muitas vezes nossos professores de geografia — e mais tarde os de economia — tentavam nos explicar o conceito marxista de mais-valia. Lembro que não era fácil esclarecer o conceito, e por mais que fizesse mil perguntas nunca conseguia ver claramente a imagem da mais-valia na minha cabeça. Alguns me recomendavam ler sobre o assunto, o que se tornava ainda mais complicado.

Mas foi chegando à Índia que descobri o primo moderno e mais fácil de entender da mais-valia, o outsourcing, uma espécie de terceirização.

Aqui ela se apresenta em várias escalas, cadeias e formatos.

No primeiro mês, entendi que nosso motorista (sim, aqui todo mundo tem motorista) em vez de limpar o carro, pagava 5% do seu salário para uma outra pessoa realizar a tarefa. Fiquei chocado pois ele tinha muito tempo livre para realizar a tarefa.

Neste ano e meio de Índia venho observando em vários momentos do cotidiano a presença da mais-valia e tenho vários exemplos que gostaria de compartilhar aqui com os leitores do blogue. Vou fazê-lo mais tarde…..

Hoje quero relatar a experiência que tive voltando do nosso almoço de páscoa, quando vi em frente ao nosso apartamento um belo exemplo do outsorcing.

Era o Dobhi, a figura que passa a roupa de todos os moradores da região.

As ajudantes domésticas, em lugar de desenvolverem a tarefa elas mesmas, levam diariamente a roupa em pequenas trouxas, para que ela seja passada na rua.

O trabalho é realizado por mulheres e homens de forma bastante rudimentar, com ferros de passar alimentados com carvão, numa barraquinha no meio da rua.

Por algum tempo, aqui em casa usamos este serviço, mas o odor das roupas não era muito agradável (pura fumaça). Desistimos então do outsourcing, e passamos a realizar a tarefa em casa.

Luis

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danças da índia

por Alessandra  Mara Vidotti

As danças clássicas da Índia têm suas origens muitos séculos, senão milênios atrás. São compostas por elementos de dança pura, ou Nritta, em conjunto como que chamamos de abhinayas e rasas.

Abhinayas são itens ou trechos dramáticos, pelos quais se contam histórias de Krishna e outros deuses. Trata-se de parte inevitável da dança, já que ela comunica o significado real representado por uma performance. O dançarino que não se desenvolve na abhinaya é considerado ruim.

Rasas são os sentimentos e emoções transmitidos principalmente pelas expressões faciais. O uso de um rasa varia de uma performance para outra, dependendo da situação ou da história apresentada pelo item a ser dançado.

dançarinas de Odissi

São sete as danças clássicas indianas que se mantém vivas até os dias de hoje e que podem ser vistas a qualquer momento em uma cidade cosmopolita como Delhi, sempre acompanhadas de ótimos músicos ao vivo:

– Bharatanatyam: com origem em Tâmil Nadu, sudeste da Índia, é um dos estilos mais conhecidos em todo o subcontinente. Com movimentos rápidos, precisos e geométricos, principalmente sob a forma de triângulos, trata-se de uma dança vigorosa e excitante. Data de antes de Cristo, quando era praticada por mulheres que viviam nos templos, mas passou a ser estudada e desenvolvida em meados do século XIX.

– Kathak: tem origem no Norte da Índia, quando era dançada nas cortes dos reis. Inicialmente se restringia à contação de histórias, mas com o tempo, foi evoluindo o movimento rítmico virtuoso dos pés, uma de suas principais características hoje em dia, além dos giros deslumbrantes.

– Khathakali: proveniente do estado de Kerala, essa dança pitoresca se desenvolve a partir da representação dos épicos e escrituras antigas, com Ramayana, Mahabharata e Puranas. Acredita-se que a forma surgiu no século XVI e suas características mais marcantes são a maquiagem pesada e os estupendos figurinos.

– Kuchipudi: era basicamente uma forma de drama / teatro nos tempos antigos, a partir de sua origem no século 3 a.C. em Andhra Pradesh, mas o drama se perdeu e hoje está reduzido à dança pura. A maioria das dançarinas são mulheres e o figurino se assemelha ao de Bharatanatyam.

– Manipuri: é o estilo de dança clássica da região de Manipur, nordeste da Índia. Os movimentos do corpo, pés e expressões faciais na dança são delicados e aspiram mostrar completa devoção e graça.

– Mohiniatam: a primeira referência a Mohiniatam foi encontrada no “Vyavaharamala”, composta por Mazhamangalam Naryanam no século XVI. É essencialmente dedicada ao amor e devoção a Deus e dançada apenas por mulheres, que usam vestidos brancos em suas performances.

– Odissi: essa é a mais deslumbrante de todas por sua delicadeza e variedade nos movimentos e abhinayas. É hoje reconhecida como o estilo mais antigo de todas as danças clássicas indianas, tendo origem na região de Orissa. Trata-se de uma dança devocional templária, ou seja, dançada antigamente nos templos como forma de oração aos deuses. Utiliza um figurino específico e seus movimentos se transformam em perfeitas poses esculturais, à semelhança das estátuas femininas entalhadas nas fachadas dos templos, especialmente o Templo do Sol, em Orissa. A dança sofreu declínio a partir do final do século XIX e foi retomada na segunda metade do século XX após intensa pesquisa desenvolvida pelos primeiros gurus contemporâneos. Os temas favoritos para interpretação na dança são as histórias de amor entre Radha e Lord Krishna.

Em viagem pela Índia, inserir um espetáculo de dança no roteiro proporcionará certo encantamento que fará toda a diferença. Vale a pena conferir!

*  Alessandra nos visitou em Gurgaon durante o mês de fevereiro de 2010. Além de nos ensinar muito sobre Odissi, dança que pratica há alguns anos e um dos motivos da visita à Índia, ela preparou deliciosos “chai masala” e dividiu horas e horas de conversa conosco.

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tudo que você queria saber

sobre um “baba” indiano, mas não tinha coragem de perguntar.

Os babas, sadhus ou homem santos são aqueles tipos esquisitos que muitas vezes aparecem como a imagem estereótipo da índia. Eles têm a barba comprida, o cabelo também, podem estar cobertos de cinzas, alguns passam anos com um dos braços levantado, outros andam com facas e espetos enfiados na pele ou se sentam sobre camas de pregos.

Esses seres misteriosos se reuniram esse ano para um grande festival religioso hindu, o Kumbh Mela, que acontece às margens do rio Ganges na cidade de Haridwar. O encontro acontece a cada doze anos e parece que tem a ver o néctar sagrado que caiu de um pote em lugares diferentes da terra, quando era disputado por deuses e demônios. Mas confesso não saber muito mais sobre a história…

Um dos nossos  mais recentes visitantes, porém, o Philippe, veio para a Índia com o projeto de perguntar coisas aos babas no Kumbh Mela e ver o que os caras têm a dizer. Qualquer pessoa pode enviar sua questão, desde a mais existencial até as coisas concretas, como o aquecimento global ou a relação dos babas com o mundo da internet. Os vídeos e espaço para perguntas aos homens santos estão no site “o baba responde“.

Este vídeo é uma das respostas de um guru que o Philippe entrevistou:

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a noite de shiva

Finalizados alguns (grandes) projetos, voltamos!

Sim, sim, no Brasil já é carnaval. E aqui, só desengano… Nem se pensa nisso, a gente esquece que o feriado existe, não planeja viagem, nem se vai ou se não vai brincar. Uma época do ano como todas as outras. É triste, sim, sim.

Mas na verdade a Índia é um grande carnaval, sempre cheio de gente nas ruas, barulho, cheiro de mijo, lixo no chão. Muito suor, apesar de pouca chuva (aqui em Delhi) e raras cervejas. Sexta passada, por exemplo, foi o dia da grande noite de Shiva, ou Maha Shivaratri. Na lua nova da noite mais longa do ano, eles rezam e meditam para lorde Shiva.

Em homenagem ao nome deste humilde site, fomos na sexta ao tempo de Shiva em Gurgaon. É um lugar com uma estátua colossal do deus, que se vê ao longe na estrada que vai até Delhi (veja mais nesse post). Sempre passávamos por ali e imaginávamos como seria o tal lugar visto de perto. Pois sexta foi o dia de conhecê-lo por dentro. Aproveitamos a visita (e disposição!) da Alessandra e da Helena para entrar um pouco no espíritro do Maha Shivaratri.

a multidão e shiva ao fundo

Mas nem tudo esteve perdido para o carnaval indo-brasileiro, pois no sábado brincamos um pouquinho na deliciosa festa carnavalesca dos amigos Eric e Marcela, com direito a confete e serpentina!

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