uma surpresa indiana

por Simone Azevedo

Jantar delicioso, vinho bem escolhido e quatro amigos queridos – um antigo, três conhecidos durante a viagem, todos brasileiros. Cercada do carinho e da simpatia deles, terminei minha jornada de dez dias na Índia. Fui para lá a trabalho, a convite de uma instituição financeira internacional, com a missão de dar uma palestra para jornalistas locais. Preparei com cuidado a apresentação. Não preparei o espírito. A bem da verdade, não tinha a menor idéia do que me esperava.

À mesa, o assunto era, claro, ela, aincredible India”. Todos pareciam felizes com a experiência de trabalhar e morar naquela terra de tão ostensivos contrastes, mas pouco confiantes para responder a uma questão aparentemente simples: o que há de belo na Índia?

Não fiz a pergunta referindo-me aos lugares turísticos sabidamente incríveis, como o majestoso Taj Mahal ou as montanhas do Norte. Minha curiosidade era o que a Índia tinha de admirável como nação. Viver naquele país, ou até mesmo degustá-lo por poucos dias, não é fácil, principalmente para quem está em cidades grandes como Nova Delhi e Mumbai. O trânsito é infernal. Buzinas soam desesperadas, deixando apenas raros segundos de silêncio. Pedintes nas ruas grudam nos vidros dos carros e não desistem até o semáforo abrir. Nessa época do ano, julho, o calor é forte, e a umidade é generosa. Nas ruas abundam a lama deixada pelas chuvas rápidas da tradicional monção e muito, muito lixo. Por toda a parte, sacos plásticos, garrafas e restos de comida entopem os bueiros e causam enchentes. Não há respeito aos sinais de trânsito, tampouco às faixas de pedestre. Em alguns cruzamentos, o pedestre pouco experiente pode se ver forçado a simplesmente desistir de atravessar. Bebês são vistos pelas ruas sem roupa e cercados de sujeira.

Nos supermercados, nas lojas, nas ruas, é bom estar sempre pronto para se defender da abordagem de um vendedor insistente e, na maioria das vezes, rude. Mulheres, principalmente as ocidentais, precisam de uma dose adicional de paciência. Olhares gulosos são disparados a toda a hora, mesmo para aquelas que se preocupam em cobrir os ombros e usar roupas comportadas, como pede a etiqueta indiana. Por vezes, os olhares vêm acompanhados de mãos atrevidas e desrespeitosas. Casos de estupro crescem dia a dia, assim como a economia pujante deste país. Em meio à crise internacional, a Índia prepara-se para expandir 7% este ano, turbinada pelo emprego e a renda gerados por organizações internacionais que lá se instalam em busca de mão de obra barata.

Os indianos de classe média são vaidosos e orgulhosos de si. Não mostram interesse por outros mercados emergentes, como o Brasil. Contam com estrutura regulatória sofisticada, alinhada aos padrões do primeiro mundo, e pouca eficácia na sua execução. Na prática, os indianos comportam-se como querem, e não como determinam as leis. A começar pelas questões mais naturais da existência humana. Nas ruas, necessidades físicas têm prioridade sobre as condições de higiene, e calçadas transformam-se em banheiro ao ar livre ao primeiro sinal de dor de barriga.

Talvez não haja mesmo tantas coisas para admirar na Índia. Ao menos para mim, parece que o melhor não está no que ela tem a nos oferecer, mas no que temos a descobrir em nós mesmos quando nos deparamos com ela. Lá, nada nem ninguém que faça parte da vida fora dos hotéis vai te ajudar a ser feliz. Os lugares são feios, o barulho é constante, a pobreza é constrangedora, e as pessoas parecem sempre prontas para testar o seu limite. Resta, então, descobrir em si a habilidade de enxergar as cores que entrelaçam o cinza das ruas, ou o sorriso espontâneo que vem de um desconhecido encantado com a pele geralmente branca dos ocidentais. É dentro de cada um de nós que encontramos os recursos para desvendar o belo da Índia, e essa busca foi a mais grata surpresa que tive neste país improvável.

Simone, além de ter sido uma grata descoberta e ter se tornado nossa amiga, é jornalista e editora da revista Capital Aberto. Ela visitou a Índia em julho de 2009.

1 comentário

Arquivado em viajantes

Uma resposta para “uma surpresa indiana

  1. marianaoli

    Acredito que o belo é um termo relativo. O que é belo para uns nem sempre é belo para outros. Concordo que descobrimos muito de nós mesmos quando nos deparamos com a Índia mas não podia deixar de discordar mais com a parte que fala: “Lá, nada nem ninguém que faça parte da vida fora dos hotéis vai te ajudar a ser feliz”. Pelo menos para mim a Índia me fez ver que é possível ver pessoas felizes vivendo na simplicidade ou até mesmo em condiçoes muito difíceis de pobreza. Existe pessoas incríveis e belas por dentro e por fora neste país. Tenho grandes amigos indianos e vivi experiencias incriveis de vida. Sempre achei que o único modo de disfrutar a India é se render a ela. É isso.

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