o enigma da chegada

Após 11 horas de voo até Zurique, 1h30 no aeroporto, e mais 8 horas no avião até Delhi, chegamos quase à uma hora da manhã no aeroporto Indira Gandhi, sob uma densa neblina e um mar de pessoas. Todas as cores de saris, turbantes e tonalidades diferentes de peles. Na saída das bagagens, uma placa grande nos recebia com “Namaste”. Chegamos na Índia, e nem pareceu ter sido tão longe… não tanto quanto eu imaginava.

Luis estava a postos na porta do aeroporto – ele e mais outro mar de pessoas e guardas com metralhadoras enormes penduradas nas costas. Parece que a segurança dos lugares ficou mais tensa após os ataques de Bombaim. Nós, porém, chegamos em paz, colocamos nossas quatro malas no fundo do carro e seguimos para Gurgaon, cidade ao sul de Delhi onde fica a nossa morada indiana. Pelo caminho, muitas construções, a cidade é um grande canteiro de obras. E muitos rikhshas, aquelas motos com cabine para transportar passageiros – o táxi mais comum por aqui, pelo que se nota.

O trânsito, mesmo de madrugada, é completamente caótico. Luis já se adaptou ao “free style” de dirigir, claro. Gurgaon é o lugar dos novos escritórios, de muitos (mesmo!) shoppings e condomínios de casas e apartamentos (uma espécie de Berrine, misturada com Alphaville e a aparência do Iraque – depois da guerra, óbvio. Sim, realmente não é o lugar mais bonito do mundo).

Chegamos ao nosso condomínio. Na portaria, pelo menos cinco caras para guardar a segurança do prédio. Um deles vem com um bastão que lembra um pula-pula e traz um espelho na ponta, e o coloca embaixo do carro para ver se não trazemos nenhuma bomba escondida. Parece que a grande paranoia da classe media indiana é o terrorismo. Uma garagem enorme abriga todos os carros do muitos moradores do condomínio. Lá ficam os guardinhas da garagem, que todas as noites verificam todos os carros para ver se estão com os vidros fechados e nenhuma luz acesa.

O nosso prédio parece meio fantasma, mas pela porta em frente à nossa percebe-se que temos vizinhos: é quase um altar, com uma escultura de ganesh, o deus elefante, de um lado e uma prateleira com outros objetos religiosos do outro. Na parte de cima do batente, mais alguns apetrechos, parecem uns sinos. Luis também já adornou nossa porta com um penduricalho trazido de Gujarat.

O apartamento é incrível, não falta espaço. Uma cozinha maravilhosa e generosa varanda. Já temos plantas por todo lado. Acho que vamos passar muito bem aqui.

Dormimos depois das quatro da manhã, horário local, e (pelo menos eu) só consegui levantar às quatro da tarde do dia seguinte. Lulu, minha irmã, estava ansiosa para conhecer um pouco de Delhi durante o dia.

Saimos de casa ainda com luz, mas o trânsito lento só nos permitiu chegar a Delhi (normalmente à 40 minutos de Gurgaon) quando já estava escuro. No caminho, paramos num mercado de flores que parecia ter saído de outro século. Várias barraquinhas vendiam aqueles colares feitos de flores que parecem servir como oferenda religiosa ou de boas-vindas por aqui.

A próxima parada foi o Khan Market, espécie de centro comercial, ocupando parte de um quarteirão, com lojas e restaurantes de todos os tipos. Da vendinha mais simples até lojas chiques de decoração e marcas enlatadas do mundo ocidental. No caminho, mulheres famintas com seus bebês a tiracolo imploram por comida batendo incessantemente nos vidros do carro. Elas têm um sorriso fascinante, com dentes brancos perfeitos, que não foram corrompidos pela miséria em que vivem.

Luis nos levou para comer no Bukhara, dizem que um dos melhores indianos de Delhi. Fica dentro de um hotel, o Sheraton, o que parece ser um costume na cidade. Na entrada do prédio os carros sao revistados por seguranças armados e passamos por detectores de metal, depois nossas bolsas são revistadas. Lá comemos um saborosíssimo carneiro, com dahl, um ensopado de lentilhas, além de iogurte e nan, o pão fininho indiano. Tudo com as mãos, nao há talheres no restaurante. E tudo extremamente apimentado. Suamos enquanto comíamos e pedimos um “mango lassi” para amenizar o ardor, um iogurte mais ralo, batido com manga. Dica do Luis, que já vem sofrendo há mais tempo com as agruras da comida indiana ultra apimentada.

14 Comentários

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14 Respostas para “o enigma da chegada

  1. silvia e gui

    Olá recém chegada e o novo indiano da turrrrma. Que bom receber notícias da chegada da mulheres Teixeira Bussius em Gurgaon. Bom saber que estão bem protegidas pela ‘Guarda Nacional’ novadelhiana. Estamos com saudades e curiosos para saber como funciona essa imensa comunidade. Um beijo grande a Luis, Ju, Marina, Bia, Denise e Lulu. Até o nosso próximo encontro virtual.

  2. Daniel

    Espero ansioso pela minha vez de visitá-los.

  3. Gabi

    Adorei Ju!!!
    Quero mais histórias e mais fotos!!!
    Te adoro!!!
    beijos

  4. Lucia Borbely

    Julia e muito legal saber de vcs e que estao bem. Aprende-se muito no inicio da vida a dois quando estamos longe de onde sempre “vivemos”, ganhamos experiencia e amadurecimento como ser humano, vcs mais ainda num pais com uma cultura tao diferente da nossa, saudades ah! existira isso ninguem pode negar, mas uma saudade boa. Adorei seu texto no hermo. Bjs a vcs e abracos a mae e luiza

  5. Mari Delfini

    Ai, que saudade!! Escreve sempre, que é muito legal tudo isso. Já tem post do anão do chá? Vou procurar…
    Beijo!

  6. Já respondi no e-mail, mas reforço aqui. Vou ser visitante assídua desse blog, pois assim vou viajando um pouco com vocês! Continuem as histórias, que estão massa (quer dizer, spiced rice!) beijos a todos, namaste

  7. shiva em gurgaon

    oba! espero sua visita em breve! beijo grande, cris.

  8. shiva em gurgaon

    Muitas saudades… Mas vamos encurtando a distância assim, com o blogue e as histórias transcontinentais. Em breve, mais sobre o anão que serve chá! Beijo

  9. primoooooooooooooooo

    para de comer ,,,,,onde vc vai pararrrrrrrrrr

  10. Rosenthal

    Fala Ju!
    Boa estada por ai! Sua literatura local é muito rica e fluida. Gostoso de ler. Gostoso de saber.
    Boa sorte e boas aventuras!
    bjos
    Rosenthal

  11. miriam bettina

    Concordo plenamente com o Rosenthal – muito gostoso de ler. Estava pensando tanto em você, Júlia, como teria sido o vôo, a chegada, não imaginava nem a metade das coisas que você contou. Sempre que passo diante da casa de teus pais olho para a janela do teu quarto. Tudo de bom para vocês dois, Beijos, Miriam & Rubens

  12. miriam bettina

    Oi, eu tinha redigido um comnetário, aonde ele foi parar. Concordo com o Rosenthal, muito gostoso de ler, muitop elucidativo. Que viagem longa. Qu eapartamento legal. Desejo tudo de bom, mais notícias, Beijos, Miriam & Rubens

  13. Oi Julia, que blog bacana…vamos ser leitores assíduos, pode deixar…
    boa sorte aí na India!
    Bjs,
    Jane e Cicero.

  14. Raffaello

    Fantástico. Leitura deliciosa. Cuidem muito bem um do outro. Beijos.

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