Como alguns de vocês sabem, estamos tentando aprender hindi por aqui. A estranhesa da língua é equivalente ao japonês, chinês, russo, enfim… idiomas com os quais não tenho a menor familiaridade. Mas como podemos nos virar bem usando o inglês (em Delhi, a maioria fala o básico), o aprendizado acaba ficando meio lento e o uso se restringe a algumas palavras enfiadas no meio de frases, tipo “price kia hai?” (qual o preço?), ou sentenças chaves como “me bevekuv nahi hoon!” (eu não sou idiota!) – essa fundamental para não ser enganado na hora de fazer algum pagamento. Além do mundialmente famoso “namastê” ou “namaskar”.
O mais divertido nas aulas, contudo, é aprender a ler em hindi. Uma segunda alfabetização, sem dúvida. O sentimento de, pela segunda vez, descobrir que som tem cada símbolo e depois começar a formar palavras com eles, é bárbaro. Esquecemos como é ter que realmente “pensar” para ler e para escrever, pois tudo sai tão automático. E eis que me pego de novo juntando c + a, para dar “ca”, e depois sacar que “casa” começa com “ca”, do mesmo jeito que “ca”valo, e por aí vai.
Na primeira aula me senti totalmente impotente. Eu olhava para aqueles desenhos e eles não me diziam nada. Para reproduzi-los, outra dificuldade, saíram garranchos, traços feiosos e bem longe do modelo a seguir. Mas aos poucos está melhorando, já decorei alguns caracteres e fico caçando eles pelas ruas, tentando decifrar esse novo código. A maior alegria foi conseguir encontrar o nome de uma cidade, na viagem que fizemos esse final de semana, numa placa escrita apenas em hindi. Fomos atrás dos sinais conhecidos e… pimba! Com duas letrinhas familiares, encontramos a dita cuja. Bahut achá (muito bom!)!
E assim me dei conta, pela segunda vez, de que aprender a ler dá uma sensação mágica, um estalo maravilhoso que nos possibilita fazer parte de um sistema; e quem sabe ser – pelo menos um pouquinho – mais livre nesse mundo.


14 Comentários
16 Julho, 2009 às 23:23
Puxa! Isso é sensacional!!!
17 Julho, 2009 às 3:58
Muito bom. Uma língua um mundo. Estudei árabe e tive essa sensação e também dando aula de literatura que precisa reapresentar e atualizar essa possibilidade de desdobramento do mundo que a leitura faculta.
18 Julho, 2009 às 6:20
Demais Juuuuu!
18 Julho, 2009 às 12:40
boa sorte!! vcs sao corajosos…
19 Julho, 2009 às 3:01
que belo relato Julia!
19 Julho, 2009 às 3:21
blz ler e escrever novamente
19 Julho, 2009 às 3:42
Investigo incansavelmente o tal “estalo”. Algumas crianças dão pulinhos de emoção quando ele acontece. Lindo!
Boa sorte nos seus estudos, Ju!
Bj
Clau
19 Julho, 2009 às 3:57
Deu até vontade de aprender a língua!
19 Julho, 2009 às 4:08
vovô Alberto era um grande leitor e o maior incentivo que tive para aprender a ler e amar os livros.
do seu apartamento na Av.Rui Barbosa, via-se um incrível anúncio luminoso no morro da praia de Botafogo, com uma laranja que ia pingando ao ser descascada.
foi a primeira coisa que li, para ele.
( vovô não podia andar, mas alçava vôos extraordinários..)
comparo a sensação à que Armstrong e Aldrin devem ter sentido ao pisar na Lua.
é outra dimensão.. como ter asas !
enjoy the ride !
19 Julho, 2009 às 9:38
uau!!! demais!
nossa, parece impossivel ler estes desenhos…
21 Julho, 2009 às 23:39
Muito bonito o seu relato. Como você mesma disse, esquecemos dessa nossa entrada no mundo (das palavras, não apenas) e anda ficamos maravilhados quando vemos acontecer na nossa frente ou conosco (!!!). Um beijo grande para você e Luís
25 Julho, 2009 às 3:52
minha frase favorita e a que mais usava na India – “me bevekuv nahi hoon!”
saudadess!
25 Julho, 2009 às 11:33
você que nos ensinou, mari! e é mesmo indispensável… beijos com saudades
30 Julho, 2009 às 17:54
Tive essa sensação ao aprender um pouco de árabe. Se realfabetizar é redescobrir, re-experimentar. Uma delícia, mesmo.
Sucesso, Julia!