27 Outubro, 2009

uma surpresa indiana

por Simone Azevedo

Jantar delicioso, vinho bem escolhido e quatro amigos queridos – um antigo, três conhecidos durante a viagem, todos brasileiros. Cercada do carinho e da simpatia deles, terminei minha jornada de dez dias na Índia. Fui para lá a trabalho, a convite de uma instituição financeira internacional, com a missão de dar uma palestra para jornalistas locais. Preparei com cuidado a apresentação. Não preparei o espírito. A bem da verdade, não tinha a menor idéia do que me esperava.

À mesa, o assunto era, claro, ela, aincredible India”. Todos pareciam felizes com a experiência de trabalhar e morar naquela terra de tão ostensivos contrastes, mas pouco confiantes para responder a uma questão aparentemente simples: o que há de belo na Índia?

Não fiz a pergunta referindo-me aos lugares turísticos sabidamente incríveis, como o majestoso Taj Mahal ou as montanhas do Norte. Minha curiosidade era o que a Índia tinha de admirável como nação. Viver naquele país, ou até mesmo degustá-lo por poucos dias, não é fácil, principalmente para quem está em cidades grandes como Nova Delhi e Mumbai. O trânsito é infernal. Buzinas soam desesperadas, deixando apenas raros segundos de silêncio. Pedintes nas ruas grudam nos vidros dos carros e não desistem até o semáforo abrir. Nessa época do ano, julho, o calor é forte, e a umidade é generosa. Nas ruas abundam a lama deixada pelas chuvas rápidas da tradicional monção e muito, muito lixo. Por toda a parte, sacos plásticos, garrafas e restos de comida entopem os bueiros e causam enchentes. Não há respeito aos sinais de trânsito, tampouco às faixas de pedestre. Em alguns cruzamentos, o pedestre pouco experiente pode se ver forçado a simplesmente desistir de atravessar. Bebês são vistos pelas ruas sem roupa e cercados de sujeita.

Nos supermercados, nas lojas, nas ruas, é bom estar sempre pronto para se defender da abordagem de um vendedor insistente e, na maioria das vezes, rude. Mulheres, principalmente as ocidentais, precisam de uma dose adicional de paciência. Olhares gulosos são disparados a toda a hora, mesmo para aquelas que se preocupam em cobrir os ombros e usar roupas comportadas, como pede a etiqueta indiana. Por vezes, os olhares vêm acompanhados de mãos atrevidas e desrespeitosas. Casos de estupro crescem dia a dia, assim como a economia pujante deste país. Em meio à crise internacional, a Índia prepara-se para expandir 7% este ano, turbinada pelo emprego e a renda gerados por organizações internacionais que lá se instalam em busca de mão de obra barata.

Os indianos de classe média são vaidosos e orgulhosos de si. Não mostram interesse por outros mercados emergentes, como o Brasil. Contam com estrutura regulatória sofisticada, alinhada aos padrões do primeiro mundo, e pouca eficácia na sua execução. Na prática, os indianos comportam-se como querem, e não como determinam as leis. A começar pelas questões mais naturais da existência humana. Nas ruas, necessidades físicas têm prioridade sobre as condições de higiene, e calçadas transformam-se em banheiro ao ar livre ao primeiro sinal de dor de barriga.

Talvez não haja mesmo tantas coisas para admirar na Índia. Ao menos para mim, parece que o melhor não está no que ela tem a nos oferecer, mas no que temos a descobrir em nós mesmos quando nos deparamos com ela. Lá, nada nem ninguém que faça parte da vida fora dos hotéis vai te ajudar a ser feliz. Os lugares são feios, o barulho é constante, a pobreza é constrangedora, e as pessoas parecem sempre prontas para testar o seu limite. Resta, então, descobrir em si a habilidade de enxergar as cores que entrelaçam o cinza das ruas, ou o sorriso espontâneo que vem de um desconhecido encantado com a pele geralmente branca dos ocidentais. É dentro de cada um de nós que encontramos os recursos para desvendar o belo da Índia, e essa busca foi a mais grata surpresa que tive neste país improvável.

Simone, além de ter sido uma grata descoberta e ter se tornado nossa amiga, é jornalista e editora da revista Capital Aberto. Ela visitou a Índia em julho de 2009.

6 Setembro, 2009

o caminho para corbett park

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caminhão levando galões de leite

As estradas na índia sao uma verdadeira aventura. Há algum tempo nós fomos passar um final de semana com amigos brasileiros num lindo parque localizado nos pés da grande cadeia montanhosa dos himalayas.

A distância percorrida de delhi até nosso destino final foi de 300km e o tempo de viagem de 6hs. Saimos logo cedo antes do sol raiar para aproveitar a estrada com pouco movimento. Iniciamos o trajeto  atravessamos um pedaço do estado de UP, o estado mais populoso da india com 200 milhões de habitantes, para entrar em Uttaranchal, recém  criado estado após desmembramento da região norte de UP.

O final de semana foi realmente incrível, como tudo na índia! Repleto de surpresas e aprendizados.

Vamos relatar mais em breve com algumas fotos deste inusitado final de semana nas montanhas.

Luis

6 Setembro, 2009

pequeno taj e cavernas em aurangabad

Julia, a editora do blog, contempla vista dos templos em Ellora durante uma pequena escapada dos trabalhos editoriais

Julia, a editora do blog, contempla a vista dos templos em Ellora durante uma pequena escapada dos trabalhos editoriais

No mês de agosto fomos visitar a cidade de Aurangabad, no estado de Maharashtra. Julia e eu fomos mostrar um pouco de Índia para meus chefes argentinos, Adrian e Juanjo.

Para comecar a aventura, descemos de avião em Mumbai e depois viajamos seis horas de carro rumo ao centro do estado, com destino à cidade de Aurangabad. Ao chegar, logo visitamos o mini Taj, obra feita pelo filho do construtor do grande e muito conhecido Taj Mahal. Uma história curiosa, pois o pai foi preso pelo filho depois de ter gasto uma soma muito grande na construção do suntuoso túmulo para sua esposa. O filho, ao tomar o poder, construiu uma versão mais simples do monumento.

A outra grande atração do lugar – e diria que a melhor – são os templos esculpidos nas rochas de Ellora, uma pequena cidade bem próxima. No total existem mais de vinte templos que tiveram sua construção iniciada a partir do século VIII. São templos hindus, jainistas e budistas.

O maior e mais impressionante deles é um dos hinduistas, que levou 200 anos para ser construído. Ele foi todo esculpido a partir do topo de um bloco único de pedra. Nas bases, enormes elefantes de pedra sustentam a estrutura e garantem a sensação de mobilidade de algo tão sólido.

Barbeiro em aurangabad

barbeiro nas ruas de aurangabad. lembra nossos salões de barbeiro do interior paulista!

6 Setembro, 2009

cenas da vida cotidiana em IFFCO chowk

Dhaba: típico carrinho de comida de rua na Índia.

Dhaba: típico carrinho de comida de rua na Índia. No cardápio, os pratos tradicionais: Dahl, Paneer, Butter, Masala, Aloo Gobhi, Naam. Esse último sempre quentinho, preparado na hora no tandori improvisado.

6 Agosto, 2009

gandhiji

não falar o mal, não ver o mal, não ouvir o mal

não falar o mal, não ver o mal, não ouvir o mal

tentando entender a Índia com os ensinamentos do pai da nação

tentando entender a Índia pelos ensinamentos do pai da nação

Entre uma reunião e outra, na cidade de Ahmedabad (Gujarat), um hospitaleiro cliente me levou para conhecer o Gandhi Ashram – lugar em que o líder indiano viveu muito tempo e de onde partiu para a histórica Marcha do Sal. Hoje em dia o ashram é um lindo museu, aberto para visitas. Um lugar de paz e silêncio que nos faz refletir e admirar a complexidade deste maravilhoso país.

Lá, comprei um pequeno livro de frases de Bapuji, o “pai”, como Gandhi também era chamado. A frase do dia é:

We should get our peace not from external enviroment, but from within us.” [Não devemos buscar a nossa paz no meio externo, mas sim dentro de nós]

Luís

5 Agosto, 2009

raksha bandhan

Hoje é feriado na Índia. Uma festa hindu, conhecida como Rakhi ou Raksha Bandhan, o nome completo. Rakhi também é a pulseirinha vermelha que se vê em tudo quanto é lojinha por aqui. É um tipo de cordão, bem simples, para ser amarrado, e no meio sempre traz algum símbolo (de deuses hindus até hello kitty ou pokemon).

O feriado de hoje é o dia de se amarrar a tal pulseira. A coisa parece ser feita desse modo: segundo a tradição, a irmã amarra o amuleto no pulso do irmão, simbolizando um pedido de proteção. Em troca, o irmão lhe dá um presente, em geral um doce, como agradecimento. E isso define o Raksha Bandhan, expressão que pode ser traduzida por “o laço de proteção” (mais ou menos).

Fiquei pensando que não temos nada parecido na nossa cultura. Há dia dos pais, das mães, das crianças, natal etc., mas nada que poderia ser chamado de um “dia dos irmãos”. Claro que essas datas são super comerciais e acabam se desvirtuando em trocas forçadas de presente, mas justo por isso fiquei pensando que a ideia simbólica do Rakhi tem sua beleza.

Tenho uma irmã e dois irmãos e eles são das pessoas mais próximas e queridas na vida – e que fazem uma falta tremenda aqui na distante Índia. Ter irmão é umas das melhores coisas do mundo. Não há dúvida de que eles sempre me protegeriam se eu estivesse em apuros, do mesmo jeito que eu faria de tudo para protegê-los quando precisassem de mim. O pequeno de gesto de amarrar uma fitinha, me fez pensar muito nos meus irmãos hoje. Queria estar pertinho para dar uma pulseira de Rakhi a cada um dos três.

um dos tipos da pulseirinha

um dos modelos da pulseirinha

4 Agosto, 2009

intervalo criativo

Estava pensando. Apesar de estar morando na Índia, todo trabalho que tenho feito por aqui é para o Brasil. E meu trabalho consiste em ler, rever, editar e, às vezes, traduzir. Sempre ligado ao texto, mas não a escrever, não diretamente.

Algo que ajudou na decisão de vir para cá foi a possibilidade de ter um tempo maior para ler, escrever, estudar, aprender uma dança diferente, talvez, saber como é viver num outro país, passar por uma experiência (radicalmente) nova. E o blogue seria a janela da “alma indiana”, desse tempo que passaríamos aqui.

Tristemente, acabamos escrevendo bem menos do que gostaríamos, afinal, na Índia não é diferente: a gente acaba se absorvendo no trabalho e nas coisas do dia-a-dia e sobra pouco ou nenhum tempo para as coisas lúdicas, reflexões, pausa para o pensamento assentar, assimilar tanta coisa nova.

Aqui sempre há um pouco de raiva, um bocado de risadas, bons amigos, pessoas novas, dificuldades e situações maravilhosas. O amor à Índia não é um amor fácil. Há uma relação de conflito, por vezes bem dolorosa, com ela, mas quando algo de bom acontece, é muito bom, e parece valer mais a pena do que qualquer coisa. Paciência e bom humor são imprescindíveis para gostar de se viver aqui – pois se vive no limite de estourar à cada momento, cada contato complicado.

É preciso entender que o tempo aqui é outro, a lógica, bem outra, o pensamento funciona de um jeito diferente. E não se irritar com isso e querer que eles tenham o espírito igual ao que conhecemos, e no qual sempre nos entendemos. Num dia em que se acorda meio “atravessado”, você se pega conjurando todos os deuses para que façam alguma coisa, tirem você daqui correndo, apaguem a luz e fechem a porta. Bem fechada.

Mas então você respira, pára, se acalma e lembra que está aqui para aprender, para entender o diverso (muito diverso). Se eu quisesse tudo igual, não saía de casa, ficava na vida paulistana de sempre. A beleza de viajar – e sempre gostamos de viajar, Luís e eu –, é sair do lugar que conhecemos tão bem, olhar o que existe em torno, fora do nosso canto confortável – para depois voltar gostando mais da nossa terra, pelas coisas boas e ruins. Aqui, tem horas em que a gente se sente fora do mundo, fora do tempo – a ideia, a geografia, a distância são tão insólitas que causa um pouco de vertigem.

A Índia ensina muito a amar o Brasil e sentir falta daquilo tudo. E faz valer a pena passar esse tempo afastado, para depois voltar querendo tudo o que ficou lá, esperando por nós.

29 Julho, 2009

old delhi: aquarelas

vendedor de amendoim e côco

vendedor de amendoim e côco

interior de antigo casarão, hoje mercado e cortiço

interior de antigo casarão, hoje mercado e cortiço

novas aquarelas do Luís, feitas em Old Delhi, nesse domingo.

16 Julho, 2009

aprendendo a ler, de novo

Como alguns de vocês sabem, estamos tentando aprender hindi por aqui. A estranhesa da língua é equivalente ao japonês, chinês, russo, enfim… idiomas com os quais não tenho a menor familiaridade. Mas como podemos nos virar bem usando o inglês (em Delhi, a maioria fala o básico), o aprendizado acaba ficando meio lento e o uso se restringe a algumas palavras enfiadas no meio de frases, tipo “price kia hai?” (qual o preço?), ou sentenças chaves como “me bevekuv nahi hoon!” (eu não sou idiota!) – essa fundamental para não ser enganado na hora de fazer algum pagamento. Além do mundialmente famoso “namastê” ou “namaskar”.

O mais divertido nas aulas, contudo, é aprender a ler em hindi. Uma segunda alfabetização, sem dúvida. O sentimento de, pela segunda vez, descobrir que som tem cada símbolo e depois começar a formar palavras com eles, é bárbaro. Esquecemos como é ter que realmente “pensar” para ler e para escrever, pois tudo sai tão automático. E eis que me pego de novo  juntando c + a, para dar “ca”, e depois sacar que “casa” começa com “ca”, do mesmo jeito que “ca”valo, e por aí vai.

Na primeira aula me senti totalmente impotente. Eu olhava para aqueles desenhos e eles não me diziam nada. Para reproduzi-los, outra dificuldade, saíram garranchos, traços feiosos e bem longe do modelo a seguir. Mas aos poucos está melhorando, já decorei alguns caracteres e fico caçando eles pelas ruas, tentando decifrar esse novo código.  A maior alegria foi conseguir encontrar o nome de uma cidade, na viagem que fizemos esse final de semana, numa placa escrita apenas em hindi. Fomos atrás dos sinais conhecidos e… pimba! Com duas letrinhas familiares, encontramos a dita cuja. Bahut achá (muito bom!)!

E assim me dei conta, pela segunda vez, de que aprender a ler dá uma sensação mágica, um estalo maravilhoso que nos possibilita fazer parte de um sistema; e quem sabe ser  – pelo menos um pouquinho – mais livre nesse mundo.

o alfabeto "chã", para "chamach" (colher).

o alfabeto "chã", para "chamach" (colher).

16 Julho, 2009

e choveu

Ontem, pela primeira vez, vi a verdadeira chuva de monções em Gurgaon. Choveu, choveu e choveu. O céu ficou plúmbeo às 3 horas da tarde, uma umidade tremenda e depois muita água, muita água mesmo. Fiquei admirada vendo o dilúvio pela janela.

Saímos de carro e vimos o caos em que se transforma a cidade. Formam-se verdadeiras lagoas nas ruas, o trânsito pára (o de São Paulo é fichinha perto disso aqui), os carros ficam ilhados, assim como um pequeno burrico que vimos, “preso” na calçada porque não conseguia atravessar a grande poça que se formou em volta dele.

Ela vem como uma bênção, a chuva. Num clima tão seco, passei o último mês olhando todos os dias a previsão do tempo para ver se tinha esperança das monções enfim chegarem (esse ano estão bastante atrasadas, o que gera um monte de problemas para o país). Mas parece que agora elas vieram para ficar!

Adeus poeira, viva a lama. Benditas sejam as monções.

poucos tinhas guarda-chuvas ontem

poucos tinham guarda-chuvas ontem

5 Julho, 2009

kulfi

picoles protegidos do calor

picolés protegidos do calor

2 litros de leite + 10 sementes de cardamomo + 15 gramas de amêndoas + 15 gramas de pistaches + 6 colheres de sopa de açúcar.

Esta é a versão  indiana para um clássico sorvete de doce de leite! Uma das minhas sobremesas preferidas na culinária local.

Este sábado, pela manhã, ao sair do centro ayurvédico Kerala aqui em Gurgaon, após uma sessão de massagem, encontrei um vendedor ambulante de kulfi. No carrinho tinham três tamanhos, de 5, 10 e 15 rúpias, e os palitinhos do sorvete eram feitos de bambu.  Mas o que realmente impressionou foi a linda pintura de Shiva abençoando aqueles que se refrescavam com a doçura do picolé!

calmo vendedor passa pelas ruas vazias de gurgaon tocando o sino em busca de um bom fregues

calmo vendedor passa pelas ruas vazias de gurgaon, tocando o sino em busca de um bom freguês

Mesmo com a proteção de Shiva, optei por seguir meu caminho para casa em segurança, sem o sabor do kulfi na boca!

(fotos e texto por Luís)

2 Julho, 2009

um passo

Acabo de ler que a corte de Delhi finalmente aprovou a lei que descriminaliza o homossexualismo no país. A seção de número 377 do código penal indiano (uma herança da época do Raj britânico), que considerava a relação consentida entre pessoas de mesmo sexo um crime (podendo levar a até dez anos de prisão), foi derrubada. Finalmente se admitiu que a lei violava os direitos humanos mais básicos.

Mas a Índia ainda caminha lentamente no que diz respeito aos direitos das minorias no país. No último domingo, aconteceu a “parada” gay de Delhi, porém quase não se falou do evento, como se eles ainda estivessem muito tímidos em manifestar publicamente sua escolha sexual. As poucas fotos que vi (quase nada nos jornais!) foram no blogue de um artista gráfico indiano (veja aqui), e muitas mostravam pessoas completamente cobertas (um pano sobre o rosto e todo o corpo). Enfim, um passo de cada vez, mas as coisas parecem estar se mexendo.